Está na cara...

Autora: Lore M.

Ainda que tudo mude, que prédios cresçam cada vez mais, que haja um ano em que a neve não caia, que o amor a nossa volta desapareça por completo e que o outono nunca mais venha, nós ainda nos amaremos, está na cara, no sorriso largo e amarelado de um rosto enrugado e experiente. Todos vêem. Maktub, me disseram um dia, significa que está escrito. 
E eu fielmente creio nisso. Nunca vai acabar, porque eu nunca deixaria você ter uma vida com outra e você nunca me deixaria chorar por você. Nunca. Eu até posso prever que será para sempre, porque estamos quase no fim e você nunca desiste quando está perto do fim. Como nos seus jogos de vídeo game, você nunca desistia. Como o sonho de ter um filho, você não me deixou quando soube que eu não podia, não se abalou, não me abalou, não desistiu. Nunca.
Eu vou sentir muita falta se você for primeiro que eu, e peço que não, porque não vai ter sentido olhar para o seu lado da cama quando acordar e encontrá-lo vazio, vai ser agridoce lembrar que sempre discutíamos sobre o lado que iriamos dormir e sobre quem apagaria a luz. Eu sei que vou rir, mas vou chorar depois. Sempre. 
Nessa cadeira de balanço ao seu lado, agora, você canta a música que diz ter a ver conosco num desafino comum. Você a cantou para mim quando nos casamos. Foi lindo. Ainda que no mesmo dia brigamos, foi lindo. Eu olho para você agora, sentada na cadeira de balanço ao som de sua voz desafinada, e vejo que deu certo. Mesmo você gostando de músicas clássicas e eu de MPB, mesmo que tenhamos 67 e ainda briguemos como um casal de 16, ainda que você reclame que eu deveria parar de ler livros de adolescentes e me obrigue a ler um jornal. Deu certo. Sempre. 
E se não basta para você, com o ar crítico que esculpiu durante toda a vida, saiba que até seu mau humor matinal me encanta, que suas reclamações me fazem rir por dentro, que seus esquecimentos constantes me fazem querer cuidar de você e te ensinar tudo novamente, porque é o que você também faz e sempre fez. Sempre. 
Não digo que tenho sorte, tenho paciência, pois escolhemos romper quando podemos apenas reconstruir, passar um remédio ou soprar a ferida. Sempre. Mesmo que sejamos tão diferentes e tenhamos noções diferentes do amor, passamos um remédio que amenizou qualquer outra diferença. Não foi? Ainda que chovesse diamante, que eu pudesse ter uma vida melhor, outros amores e outra felicidade. Eu não o trocaria. Nunca. Porque o eterno é mais bonito ao seu lado ouvindo seu desafinado comum. — LoreM

Sobre Fixação Literária

Fixação LiteráriaSomos jovens escritores que almejam um lugar nesse vasto campo que é o universo literário e termos a chance de acrescentar na amargura do mundo uma gota de criatividade, duas colheres de elegância e uma pitada de imaginação. Créditos imagem - Mell Galli
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