Noite Feliz

Autora: Lore Medeiros

Noite Feliz

Já é noite, eles deveriam estar atrás de mim. Hoje não, hoje não. Hoje é dia de encontro com Rick, nada deve dar errado. Noite feliz.
Estou de frente para o espelho e o vestido vermelho colado que visto me enche de poder e rezo por papai não estar mais aqui agora, ele me mataria.
 Perdoe-me, papai, mas é assim que se vestem hoje, todas elas. Me admiram assim e eu gosto.
Meus cabelos negros escorrem até abaixo dos seios. Pareço sexy. Sorrio para mim mesma. Mamãe se envergonharia por isso, mas não importa. Estou livre.
O que eu deveria calçar? O que elas calçam mesmo? Salpo! Isso, isso mesmo!
- Calçarei um salpo! - digo em voz alta, sorrindo.
Procuro-os pelo quarto e lá está. Preto e chamativo ao seu modo.
A garota da loja disse que era o mais lindo, só que olhando agora, me parece um pouco alto.
- Você é livre, Rosie, livre agora! - digo, confiante.
Pego-os e calço.
O espelho confirma para mim o que preciso saber: Estou diferente, estou linda!
Sorrio novamente e alguns tropeços me fazem cair. Rio, Levantando-me e tento outra vez.
- Um, dois, três... - conto para meus passos. - Um, dois, três. Isso! É assim.
O teto estremece acima de mim e tento ignorar.
Mais uma vez.
Poeira cai sobre mim. Respiro fundo. Olho ao redor.
Nada, não é nada.
- Um, do... - As luzes começam a piscar, como se de repente perdessem as forças e tentassem se manter acesas à força.
Meu coração bate mais rápido e tento engolir o seco em minha garganta.
Pensa, Rosie, pensa.
Volto meu olhar para a porta e corro o máximo que eu posso para atravessá-la. Os salpos dificultam agora, mas não vou tirá-los.
Saio do quarto e fico de costas para o corredor. Me afasto cautelosamente do quarto ainda de costas para o corredor, que também tem suas luzes falhando.
- Rosie, olhe para mim! - diz uma voz áspera. - Rosie, venha cá! - É a voz de mamãe.
Me volto rapidamente para o corredor. As luzes se apagam.
Grito desesperadamente alto.
- Está com medo, sua insolente? - indaga mamãe.
- Por favor, mamãe, me deixe! Me deixe ir, eu sou livre! - Olho para todos os lados do escuro absoluto.
- É o que seu pai dirá! - diz mamãe friamente.
Tudo se mergulha em um silêncio demorado e arrisco dar alguns passos a frente, mas algo me puxa pela perna e caio no chão com um grito agudo e longo.
Paro.
Silêncio novamente e agora caída choro desesperadamente.
- Por favor, me perdoe! Só desejo ser feliz, me perdoe! - grito para o escuro vão.
Sinto algo me puxar pelo pé e arrastar-me pelo corredor, sofrendo fortes pancadas ao bater nos móveis que enchem a salinha após o corredor.
Choro aflita e tento me libertar, mas não é possível. Suas mãos são fortes o bastante.
Tento inutilmente segurar em algo, mas minhas mãos estão suadas.
- Pare! Por favor, pare! - finalmente conseguindo gritar, fazendo inesperadamente parar a coisa.
Minhas costas e meus braços queimam, impedindo-me de levantar.
Meu vestido, antes na altura das coxas, agora está quase atingindo meu umbigo.
Retorço-me chorando mais baixo e gemendo.
- Rosie! - alguém chama por mim lá fora. Não é mamãe nem tampouco o papai, mesmo sendo voz de homem. - Rosie!
- Rick! - reconheço. - Rick, me ajuda! Grito inutilmente.
- Você não vai a lugar algum. - diz uma voz friamente. - Domingo é o dia de se render a Deus pelos pecados, se renda! - é o papai.
- Pai, não, por favor!
- Rosie! - Rick insiste lá fora.
- NUNCA MAIS IRÁ ME DESOBEDECER! - grita ele, rasgando o meu vestido e me arranhando ao mesmo tempo.
- Não! Paraaaaa! Me deixa! - dor, sinto mais dor. Muita dor.
Papai me arranha por um longo tempo e quando para sinto o frio do quarto me tocar.
Estou nua, totalmente nua. Entretanto o calor das feridas dominam o meu corpo fraco nesse instante.
Papai sumiu, assim como mamãe.
Rick, onde está o Rick?

- Rick, já estou indo. - suspiro. - Foi só mas um pesadelo. Só mais um. - balbucio, fechando meus olhos.

Sobre Fixação Literária

Fixação LiteráriaSomos jovens escritores que almejam um lugar nesse vasto campo que é o universo literário e termos a chance de acrescentar na amargura do mundo uma gota de criatividade, duas colheres de elegância e uma pitada de imaginação. Créditos imagem - Mell Galli
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