Ceifador

Ela anda devagar, descompassada e batendo levemente nas árvores, sua respiração está ofegante, mas não há medo nas batidas de seu coração, apenas receio e dúvida. A lua hoje não é sua amiga, escura e escondida por sobre a sombra da terra que alheia a tudo e a todos continua seu ciclo impassível ao redor do sol. E eu...
Eu apenas sinto, observo e pacientemente espero. A garota solta um gemido de dor, em sua caminhada cega pela floresta ela bateu a cabeça em um galho e agora está sangrando, o cheiro chega à mim, meus sentidos já tão aguçados se tornam afiados como uma lâmina. Mas... Ainda não, ainda não é a hora certa. Minutos se arrastam como se o tempo estivesse com preguiça de continuar sua jornada eterna, mas paciência é minha maior virtude, das poucas que possuo a que mais tenho orgulho. Ela finalmente chega onde eu a espero, ela é claro não me vê e nem me verá até o momento certo.
Ela suspira e sussurra palavras de encorajamento "calma", "vai dar tudo certo", "você conhece aqui com a palma de sua mão "não é a primeira vez que você se perde", ela realmente acredita nisso, cada palavra. Sua respiração se acalma um pouco ela solta um meio sorriso bem mais confiante e dá mais um passo em minha direção.
Eu me preparo, arregaço minhas mangas tão longas e desgastadas, mesmo meu manto e capuz sendo esbranquiçados nas pontas ela não me vê, na verdade não importa a cor, ela só me enxergará quando eu quiser. Mais um passo e agora ela está cara a cara comigo, algo a faz entrar em alerta, minha presença se torna quase palpável, mas no próximo passo já é tarde demais.
Seu corpo cai, desfalecido e sem vida no despenhadeiro atrás de mim, oculto pelas trevas da noite, mas em meus braços sua alma está segura, confusa e agarrada fortemente em minhas vestes, como um animalzinho desesperado.
Eu senti a quilômetros o cheiro da morte vindo dessa densa floresta, um cheiro ainda não tão forte, mas nítido e uma vez impregnado por ele não havia mais salvação.
Se eu não a tivesse ceifado no momento de sua queda ela teria caído, mas morreria várias horas depois e enquanto isso seus últimos momentos seriam apenas sofrimento agonizante e dor indescritível.
Sua alma brilhava em meus braços, ainda agarrada à mim, olhando para meu rosto à procura de respostas que infelizmente, para as perguntas que borbulhavam em sua etérea existência, eu não as tinha "porque?", "é justo?", "e meus pais?" entre muitas outras...
Antes que ela pudesse falar alguma coisa eu me inclinei e segurei levemente seu rosto com uma de minhas mãos livres, mãos pálidas e dedos finos, mas afáveis e calorosos, seus olhos brilharam em admiração quando finalmente viu minha face atrás do capuz, olhos que refletiam o universo, pontos de luz numa escuridão infinita, meus cabelos cor de sangue tão intensos e fluidos que não dava para distinguir se eram sólidos ou imateriais, mas acima de tudo ela se hipnotizou por minha beleza, a beleza de um Ceifador... Nossa dádiva, nossa maldição e melhor arma.
Meus lábios tocaram os dela, num beijo tão leve, tão casto que qualquer um que o visse teria certeza de sua pureza. A luz de suas memórias brilhou entre nossos lábios, cada momento de sua antiga vida era depositado em mim, alegrias, tristezas, desejos e sonhos, eu seu ceifador e agora eterno guardião de suas lembranças, de uma vida que se acabara. A luz foi se enfraquecendo até finalmente cessar e diante de mim Eliza já não estava mais lá, apenas uma alma renovada e limpa pronta para um novo ciclo, uma nova vida.


Bárbara Vallini

Sobre Fixação Literária

Fixação LiteráriaSomos jovens escritores que almejam um lugar nesse vasto campo que é o universo literário e termos a chance de acrescentar na amargura do mundo uma gota de criatividade, duas colheres de elegância e uma pitada de imaginação. Créditos imagem - Mell Galli
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