Poison Minds - EP 4

EPISÓDIO 4 – O bom filho a casa torna


Depois de alguns quilômetros e alguma meia hora de lembranças, chego ao endereço, pago ao taxista e dou de cara com o lugar, sem mim aquela casa se tornara num lixão, provavelmente o traste não estaria em casa naquele horário, catei as chaves na minha bolsa e entrei na casa. Havia lixo espalhado por todo lugar, roupas sujas espalhadas, louça suja por todos os cômodos, garrafas e mais garrafas de bebidas nos cantos dos móveis, ainda havia vestígios de pó na mesa, será que não dava pelo menos para cheirar as sujeiras?

Certamente, com toda a sujeira dessa mesa, ele cheirava mais poeira que a própria droga. Ao chegar ao quarto ainda vejo algumas marcas dos acontecimentos, faz tantos anos, ele não podia pelo menos pintar as paredes para limpar as manchas de sangue, mas talvez ele gostasse de vê-las ali, a cama desarrumada e suja, o cheiro de mofo estava impregnado em tudo, mais garrafas, drogas e alguns preservativos usados, só de pensar em quanto eu já fui usada por aquele porco, me sinto suja.

Diante de todo aquele cenário, larguei a bolsa no chão, afinal, alguém deveria se dar ao trabalho. 

Arrumei o máximo que eu pude, limpei a frente da casa, fiz minhas tarefas como de costume, e o plano foi posto em prática, tomei um banho, coloquei uma calça jeans, uma bota de cano curto e uma regata com um casaco leve por cima. Por dentro da bota escondida pela calça jeans havia uma faca, preso com fita nos meus pulsos haviam navalhas, por debaixo do sofá tinha um revolver por precaução, eu sabia aonde ele a escondia, ele nem sequer se deu o trabalho de mudar.

Então eu estava no sofá, sentada ereta, olhando para o meu reflexo na televisão desligada.

A porta se abre e ele aparece bêbado como sempre, um arrepio percorre meu corpo, mas não deixarei o medo tomar conta do meu corpo, me permaneci firme, pus um sorriso falso no rosto e levantei para recebê-lo.

– Papai, finalmente você chegou, estava ansiosa. – Ele me olha sem entender, mas depois abre um meio sorriso. – Arrumei tudo como você gostava, lembra?

– Que bicho te mordeu, garota? – Ele não se contém, e dá uma gargalhada. Mantenho-me como se não entendesse o motivo para tal reação. Ele vê que mantive a mesma postura e me olhou sério. – Pelo visto aquela espelunca te concertou mesmo, não é? – Me analisando dos pés a cabeça, ele se joga no sofá e faz sinal para que eu sentasse do lado dele.

– O senhor me disse que tudo voltaria a ser como antes, eu vou preparar a janta. – Tentei levantar, ele me segura pelo braço e me puxa para o sofá.

– Igual? Por mim pode ser. – Conheço o olhar daquele canalha, sei o que ele está prestes a fazer, e também sei o que fazer. – Você me promete que vai se comportar e vai ser uma boa menina? Pede desculpas ao papai. – Engasgo com o ódio e engulo a seco.

– Sim, papai. Desculpe-me, vou ser a filha que o senhor sempre quis. – Ele solta outra gargalhada, dessa vez não sei se consegui disfarçar tamanha revolta que estava sentindo.

– Assim eu gostei. – Ele mal podia se conter em alegria, estava eufórico. Pôs a mão na minha coxa bem próxima a virilha e aproximou os lábios da minha nuca. – Se você fizer tudo direito, te recompenso. – Ele tira um saquinho com um pouco de cocaína de dentro do bolso e joga em cima da mesa de centro. Dei um meio sorriso e ele avança, enche a mão com um dos meus seios, sua mão desce até o meio das minhas pernas.

– Vou tirar meu sapato. – Ele não se move e enquanto me abaixo, se ocupa descendo os beijos pelas minhas costas e não presta atenção na minha movimentação, caço com dedos delicadamente a faca, seguro firme, penso na força, traço todo o caminho até chegar aonde mentalizo, fecho os olhos, respiro fundo e com toda minha força cravo-lhe a faca em seu pescoço, só escutei um urro, o sangue desceu pela camisa surrada, seu corpo tomba em direção ao meu, posso ver em seus olhos o mesmo que via quando pequena, como pode um monstro ter desejo por uma criança? Enojo-me.

Sua mão ainda permanece entre minhas pernas. – Essas mãos nunca mais vão me tocar! – Sou invadida por uma onda de raiva, corto suas mãos, sinto uma paz. – Não me olhe desse jeito! Você mereceu, vá para o inferno! – Cravo a faca em seus olhos, largo a faca no chão, ouço o barulho do aço batendo no piso oco enquanto as gotas de sangue sujam todo o chão, o sangue que ainda escorre de seu pescoço dá uma coloração nova ao sofá surrado, passo a mão no meu rosto e sinto o cheiro de sangue fresco, minha cara está completamente tingida do sangue daquele desgraçado, mas agora acabou, e pela primeira vez consigo sentir o que chamam de alegria, o prazer toma meu corpo de uma forma, quase posso dizer que tive um orgasmo.

A sensação de êxtase põe um sorriso em meu rosto, enquanto olho a poça de sangue que se forma respiro fundo ainda excitada. – Boa noite, papai.

Sobre Fixação Literária

Fixação LiteráriaSomos jovens escritores que almejam um lugar nesse vasto campo que é o universo literário e termos a chance de acrescentar na amargura do mundo uma gota de criatividade, duas colheres de elegância e uma pitada de imaginação. Créditos imagem - Mell Galli
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