Poison Minds - Labirinto (EP 09)

EPISÓDIO 9 – LABIRINTO


Resta somente uma pessoa para ser atingida pela justiça... – eu pensava comigo mesmo – Depois disso eu poderei descansar em paz...

Meus pensamentos e devaneios eclodiam em minha cabeça durante meu banho relaxante de espuma, era difícil conseguir relaxar quando se tinha uma missão do nível da que eu estava incumbido a cumprir. Soldados são treinados apenas para cumprir missões e depois descansarem.

Com minha missão cada vez mais perto de ser cumprida eu aguardava ansioso como um soldado que espera pelo fim da guerra para poder retornar aos seus filhos. Eu aguardava ansiosamente para voltar para o meu descanso eterno.

A espuma e as bolhas da hidromassagem conseguiam tirar parte da tensão que eu sentia em meus ombros, mas conviver com a tensão também é algo que faz parte da vida de um soldado. Nós tínhamos um truque que nos ajudava a descansar mais rapidamente que era mergulhar em banheiras de água gelada, adormecendo os músculos e os obrigando a relaxarem, mas eu nunca fui a favor disso, creio que um banho quente e relaxante torna a vida mais simples e prazerosa.

Após o banho eu me levantei e me sequei e como era o único dentro do quarto eu não desejei vestir meus trajes de guerra, ao invés disso eu apanhei um lençol branco que estava solto pela cama e o amarrei como se fosse uma toga e vesti. Pousado cuidadosamente em cima do carrinho de sobremesas que solicitei no serviço de quarto havia uma coroa de folhas de louro (hotel com temática romana) e eu prontamente a coloquei na cabeça.

Só restava uma única coisa a ser feita para que aquela noite fosse concreta e gloriosa. Eu apanhei minha lira na bolsa que carregava, me sentei na poltrona de couro branco que havia de frente para a cama e respirei fundo...

Serenata da viagem da morte... – eu disse em minha própria mente antes de iniciar a melodia sombria e triste de minha lira, a Lira de Orfeu. Cada mínimo toque em cada corda produzia uma nota envolvente e inquietante que mergulhava até o mais hábil soldado em um estado de hipnose profunda.

Tão breve a música se iniciara eu já não me encontrava dentro daquele quarto, estava imerso dentro de um plano que não era material, não podia ser. Eu via as galáxias em sua formação, as diversas explosões de estrelas que geravam energia massiva e novas constelações, planetas, sistemas e galáxias. Era como se eu estivesse acima do universo e contemplasse sua infinidade.

Em seguida eu fui tragado por uma das galáxias e fui mandado a um jardim que eu já conhecia muito bem. Caí de costas em meio a folhas secas de um outono ensolarado em meio a primavera, meu corpo estava dormente e eu pouco sentia meus membros, aquela árvore me era tão familiar...

- Vem comigo Ron! – uma menininha gritara pra um garoto pequeno e sorridente que corria atrás dela.

- Eu já estou indo Susan! – ele gritara em resposta.

Os dois brincavam alegremente e corriam um atrás do outro se divertindo intensamente, eles tinham cerca de doze anos no máximo e para eles aquilo era divertido.

Por que essa cena me é tão familiar? – eu pensava comigo mesmo enquanto assistia os dois interagindo naquele jardim florido.

O garoto finalmente alcançou a garota e saltou sobre ela de forma que os dois caíram no chão e ele estava deitado em cima dela.

- Susan, eu te amo e sempre vou estar com você. – o garoto disse enquanto beijava os lábios da doce menina.

- Eu sempre vou estar com você. – ela respondia em meio a um sorriso bobo.

Aquela cena me incomodava muito e eu ainda não sabia o porquê ela era tão familiar para mim, tudo naquele lugar era familiar, as árvores, o balanço de pneu amarrado na árvore, à casa velha de madeira e o galpão no quintal dos fundos.

De repente tudo foi desfeito como um passe de mágica e em seguida eu me vi dentro do quarto do garotinho com um pôster das forças armadas preso na parede, ele estava dormindo e de repente seu telefone tocou, ele atendeu e a voz da pessoa que falava do outro lado era tão alta que era possível escutar mesmo do outro lado do quarto.

- Ron! – era a voz de uma garotinha que aparentava estar chorando.

- Hãn? Sou eu, quem está falando? – respondeu o garoto com uma voz sonolenta.

Por que essa cena me é tão familiar?! Isso não faz sentido!

- Eu preciso da sua ajuda Ron... Vem me impedir de fazer uma besteira...

- Olha, está tarde, me liga amanhã e eu resolvo seu problema. Boa noite. – e por fim o garoto desligou o telefone e antes de voltar a se deitar ele disse para si mesmo – Não sei quem era e se for importante à pessoa ligará de novo amanha.

Ao ouvir aquelas palavras eu me dei conta do por que aquilo tudo ser tão familiar para mim. Eu era aquele garotinho inocente que estava deitado, e num estalo momentâneo eu pude pressentir o que viria em seguida. Eu já havia vivido aquele momento antes.

Quando eu me dei conta de que o garotinho não levantaria da cama eu corri até a janela e pulei para a casa ao lado onde a garotinha Susan havia telefonado para Ron, eu entrei pela janela no momento em que ela estava lá, com o telefone em uma mão e chorando copiosamente, na outra mão havia um revolver calibre .22 apontado para sua própria cabeça. Eu tentei correr até ela e impedi-la, mas o estampido que ecoou por todo o quarto e abalou minha existência foi seguido de um projétil que atingiu a cabeça dela e a jogou no chão.
No momento em que seu corpo atingiu o chão aquela realidade foi quebrada como um espelho frágil ao ser atingido por um objeto qualquer. A realidade que me relembrou da razão de entrar para o exército, a realidade cruel na qual eu vivia.

Eu fui o responsável pela morte de Susan... Não importa o quanto eu tente, sempre que eu tento salvar alguém esse alguém é morto injustamente! Não é justo!

Quando me aproximei novamente do garoto deitado na cama despreocupadamente e sem imaginar que fora responsável por uma vida perdida para assassiná-lo eu ouvi um barulho ensurdecedor que me retirou do transe e interrompeu a melodia nórdica que era tocada na lira, era o barulho de uma porta se abrindo.

Um funcionário do hotel abrira a porta para me notificar que os hóspedes ao lado acharam minha música um tanto quanto deprimente e queriam que eu parasse de tocar, para a infelicidade desse tal funcionário, ele interrompeu meus devaneios mais puros e os profanou, ele não era digno de estar vivo e nem de interromper tão sublime réquiem.

Enquanto ele pronunciava as reclamações dos hóspedes eu fingia estar dormindo e isso o obrigou a se aproximar da poltrona onde eu estava sentado, meu ódio por aquele ser indigno que profanou meus sonhos aumentou explosivamente de forma que não pude me conter e levantei em um salto falando com uma voz grave e rouca:

- Morra seu profanador de memórias! Você vai conhecer agora o poder de um...

- O que?! – gritou o homem em resposta, e tenho que ressaltar que ele estava visivelmente apavorado.

- Acorde perfeito! – o homem não conseguiu sequer perceber o momento em que joguei minha lira contra seu pescoço, sua haste de ouro polido e incrivelmente afiada atingiu o pescoço do funcionário do hotel com extrema força, produzindo não somente um som melodioso enquanto as cordas se tocavam (um verdadeiro acorde perfeito), mas também cortando metade do pescoço do sujeito, pescoço esse que ficou (em uma forma mais clara de se entender) aberta como um boneco do jogo PAC-MAN.

O sujeito caiu no chão já desfalecido apenas aguardando a hemorragia acabar com sua dor. Eu recolhi minha lira e coloquei-a novamente após limpá-la cuidadosamente em minha bolsa, vesti minha jaqueta de couro preta, um par de luvas pretas de lã e minha calça jeans preta, uma bota do exército e corri para as escadas de incêndio, certamente dariam por falta daquele funcionário e iriam até meu quarto, eu não podia simplesmente sair como se nada tivesse acontecido. Eu fugi pela escada e peguei meu carro no estacionamento, fugi com a mesma habilidade que possuía quando fugi do hospital psiquiátrico.

O mundo está piorando cada vez mais, não existem pessoas dignas de viver. Todos carregam sua culpa. Todas precisam ser levadas a justiça.




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Olá, me chamo Iago Victor, escritor, marido dedicado e professor de Literatura, Língua Portuguesa e Língua Inglesa nas horas vagas. De vez em quando toco guitarra e violão e invento de gerenciar um blog, que por sinal amo muito!!

"Eu faço o meu melhor para formar os melhores."  

Sobre Fixação Literária

Fixação LiteráriaSomos jovens escritores que almejam um lugar nesse vasto campo que é o universo literário e termos a chance de acrescentar na amargura do mundo uma gota de criatividade, duas colheres de elegância e uma pitada de imaginação. Créditos imagem - Mell Galli
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