Planejamento: Arsenal - Poison Minds (EP19)

19 – PLANEJAMENTO: ARSENAL


(02:00 pm)

A viagem para casa foi silenciosa, Victória estava distraída demais com seus próprios pensamentos e eu decidi não forçar uma conversa já que (A) eu já não estava a fim de conversar e (B) por mais que ela precise de mim, aprendi a sempre desconfiar de todo mundo e em caso de um improvável ataque dela eu teria que neutralizá-la.

Após estacionarmos na entrada da casa, eu saí do carro e fitei Victória que parecia estar em outro mundo, cutuquei seu braço e disse:

- Me acompanhe.

Victória saiu do carro e caminhou atrás de mim enquanto eu nos conduzia para o celeiro atrás da casa. O espaço era bem grande e eu o adaptei para se aproximar o máximo possível de um campo de treinamento militar, coloquei arames farpados para criar uma trilha e com alguns troncos e tábuas consegui criar alguns obstáculos bem difíceis como cavaletes e trincheiras para praticar tiro ao alvo e exercícios de combate.

Por fora a estrutura era toda construída em madeira antiga e pintada com uma tinta vermelha que já estava bem velha e desbotada, por dentro era um centro de treinamento militar que poderia ser usado para treinar um pelotão inteiro.

Abri a porta e segui para uma mesa de carpinteiro do lado direito onde havia algumas pistolas e coletes a prova de bala, havia também um apito e um cronômetro e esses eram os instrumentos que eu queria naquele momento.

- Victória, tire a roupa. – eu disse com uma expressão bem séria no rosto.

- Ah... Bem... – a garota pareceu ter ficado desconcertada (o que não faz sentido já que ela faz o que costuma fazer).

- Antes que você pense alguma besteira, você vai vestir uma roupa mais confortável para que consiga passar pelos exercícios.

Após uma longa discussão entre “Por que eu tenho que fazer isso?” e “Você tem que se preparar” e ainda um pouco de “Se você entrar lá sem preparo você vai morrer!”, nós finalmente conseguimos iniciar o treinamento.

(04:35 pm)

Victória estava vestindo uma calça de sarja do exército e uma camiseta regata preta, prendeu seu cabelo em um rabo de cavalo e se preparou para o caminho, se posicionou de frente para o campo quando eu dei as últimas dicas sobre o exercício.

- Você vai se arrastar por debaixo dos arames, saltar os obstáculos de madeira e muito cuidado nesse momento porque eles estão cheios de pregos! Depois você vai escalar na corda e atravessar o poço de lama, rolar por cima dos cavaletes de madeira e depois correr em disparada até aqui.

A garota se preparou e ao ouvir o apito estridente, correu em disparada e se jogou por debaixo dos arames farpados, se arrastou com dificuldade e vez ou outra acabou grunhindo de raiva (ou dor). Os obstáculos de madeira tinham aproximadamente um metro e meio de altura e eram forrados de pregos e ao olhar para os objetos, Victória sentiu um ódio tremendo e resolveu passar por cima deles de uma vez só. Eram três pedaços de madeira que pareciam cercas para gramado, com muita dificuldade a Victória conseguiu pular cada um deles.

Escalar a corda e saltar pelo poço de lama talvez tenha sido a tarefa mais fácil, mas tenho de admitir que eu comecei a rir quando a garota tentou rolar pelos cavaletes e caiu. Um após o outro ela rolou e em seguida correu até onde nós estávamos no início do percurso que havia sido propositalmente construído em formato oval.

Claramente, a primeira volta de Victória fora totalmente insatisfatória e eu a obriguei a tentar novamente até que seu tempo estivesse abaixo da média. Depois de sete voltas com pausas apenas para descanso entre elas, Victória conseguiu abaixar seu tempo e ficar com a marca satisfatória.
Após outra longa discussão que envolvia o tempo correto de descanso, nós decidimos tirar uma pausa.

(07:10 pm)

Estávamos sentados sobre as montanhas de feno e o sol já havia ido embora, tive de acender as luzes do celeiro para que continuássemos o treinamento e o próximo da lista era o teste de tiro.

- Levante-se Victória... – foi um desafio até para eu levantar daquela pilha de feno muito macia – Temos que continuar. Está na hora do uso de armas de fogo.

- Sério que temos que fazer isso? – a reclamação daquela garota estava cada vez mais irritante.

- Você quer mesmo começar outra discussão? – eu refutei.

- Ah... É que eu não uso armas de fogo para matar, sou melhor com armas brancas.

- Tente enfrentar um policial com armas brancas e você vai ver o que vai te acontecer. – eu adverti encerrando de vez a discussão.

Mesmo a contragosto a garota teve de praticar os tiros ao longo do estande improvisado que havia ali no celeiro. Treinamos o uso de pistolas, metralhadoras, escopetas e fuzis. O placar em comparação aos meus acertos e os de Victória não eram justos, mas ela se saiu bem, após a quarta bateria de tiros com a pistola ela já estava mirando bem.

Quando fomos para as metralhadoras ela teve muita dificuldade por serem considerados armamentos pesados e decidiu que não as usaria na invasão. O uso da escopeta acabou por machucar os ombros de Victória, ela tinha de apoiar a arma no ombro a cada tiro e após quarenta disparos ela implorou por uma pausa e assim o fizemos (não sou um monstro totalmente incompreensível).

O uso de fuzis foi desastroso no começo, ela não conseguia segurar a arma com precisão e atingiu alvos que nem estavam programados naquela bateria, mas depois de uma hora ininterrupta ela começou a aprender como funcionava o sistema de mira. Após muito esforço ela conseguiu atingir a média satisfatória para o exercício. Podíamos passar para o próximo exercício.

(00:17 am)

Antes de irmos dormir ainda tivemos uma aula básica sobre combate corporal, onde lutamos um contra o outro enfatizando bem as técnicas de desarmar inimigos e finalizá-los. Como já era esperado, a Victória não conseguiu me imobilizar nenhuma vez e perdeu todos os combates diretos, mas ao menos aprendeu como desarmar alguém e isso já era alguma coisa.

No fim da noite, pouco antes de cairmos no sono, ficamos deitados um ao lado do outro, Victória estava usando minha jaqueta como cobertor enquanto eu estava usando uma camada de feno como travesseiro. Estávamos estranhamente próximos um ao outro, ela com a cabeça colada ao meu ombro e meus pés encostando-se aos seus. Victória através de uma voz bem sonolenta acabou por perguntar:

- Sabe Orfeu, é meio estranho isso tudo. Por que você está me ajudando?

Olhei para baixo e lá estava ela, olhando nos meus olhos como uma garota inocente esperando uma resposta inocente e eu lhe respondi:

- Porque você... Hum... Ah, é difícil dizer, eu apenas senti vontade e estou te ajudando.

- Ah... Entendo...

- Considerando que essa será uma missão quase suicida, pode ser que essa seja nossa última conversa...

- Eu achei que você estava seguro...

- Nunca estou. Um soldado como eu não pode abaixar a guarda nunca. – então olhei para ela e ela havia se aproximado um pouco mais, nossos narizes estavam se tocando.

- ...

- ...

- ...

- Enfim, eu tenho para mim que se nós tivermos que morrer, nós acabaremos morrendo juntos... – quando olhei novamente para Victória ela já havia adormecido ao meu lado, eu olhei para cima, suspirei e disse apenas para mim mesmo – Não vou errar novamente. Não com você...

Sobre Fixação Literária

Fixação LiteráriaSomos jovens escritores que almejam um lugar nesse vasto campo que é o universo literário e termos a chance de acrescentar na amargura do mundo uma gota de criatividade, duas colheres de elegância e uma pitada de imaginação. Créditos imagem - Mell Galli
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