Falando sobre - GREY, de E.L. James

FALANDO SOBRE - GREY, de E.L. James
Matéria Original por: Iago Victor 


Todo mundo sabe do sucesso que foi o livro da autora E.L. James com a (até então) trilogia de Cinquenta Tons de Cinza, ela foi indicada como a personalidade do ano, ao prêmio de pessoas influentes e candidata ao prêmio de Pessoas mais fascinantes.

O sucesso dela é inquestionável, 125 milhões de cópias vendidas em todo o mundo. O filme quebrou também alguns recordes no gênero (quebrando aquela teoria de que esse seria o filme mais aguardado do ano, visto que foi desbancado por diversos outros filmes lançados meses depois).

A saga de filmes agora não é tão importante, pelo menos nessa matéria. 

Eu começarei aqui uma análise sobre o novo livro da autora, o "Grey", a visão do rico e bem sucedido empresário em relação ao seu próprio mundo. Essa visão não acontece nos três primeiros livros em razão da própria narrativa que priva o leitor de ter o entendimento do outro personagem, sendo os três primeiros títulos do romance narrados na primeira pessoa, o que limitava muito a visão e imaginação de quaisquer outros personagens. Tendo agora em mãos o novo livro, já na perspectiva de Grey, é possível notar algumas diferenças gritantes em relação a essa série.

Já nos primeiros capítulos podemos notar algumas semelhanças entre 50 Tons de Cinza e Grey. O livro começa em uma narrativa de um sonho "interessante" do Christian que já dá margem aos críticos a diversas interpretações. Seguindo o histórico de perturbada infância e inocência tragada de sua vida, pode-se perceber que na descrição do sonho (tanto na obra original quanto na tradução da Intrínseca) temos a visão de que no parágrafo: 

"TENHO TRÊS CARROS. Eles correm rápidos pelo chão. Muito rápidos. Um é vermelho. Um é verde. Um é amarelo. Gosto do verde. É o melhor. Mamãe gosta deles também. Gosto quando a mamãe brinca com os carros e comigo. O vermelho é o seu preferido. Hoje, ela está sentada no sofá olhando para a parede. O carro verde voa no tapete. O carro vermelho segue. Em seguida, o amarelo. Bateram! Mas mamãe não vê. Eu faço novamente. Bateram! Mas mamãe não vê. Miro o carro verde para seus pés. Mas o carro verde vai para baixo do sofá. Eu não posso alcançá-lo. Minha mão é muito grande para o espaço aberto. Mamãe não vê. Quero o meu carro verde. Mas a mamãe fica no sofá olhando para a parede. Mamãe. Meu carro. Ela não me ouve. Mamãe. Puxo sua mão e ela se deita e fecha os olhos. Não agora, Maggot. Não agora, ela diz. Meu carro verde permanece embaixo do sofá. Ele está sempre embaixo do sofá. Posso vê-lo. Mas não posso alcançá-lo. Meu carro verde está camuflado. Coberto de pelo cinza e sujeira. Quero-o de volta. Mas não posso alcançá-lo. Nunca posso alcançá-lo. Meu carro verde está perdido. Perdido. E eu nunca poderei brincar com ele novamente." (JAMES, E.L, 2015)

Vê-se nesse primeiro aspecto da obra que Christian corresponde as expectativas do público jovem e dos próprios personagens no que diz respeito à amplidão do vazio presente na conjectura de Christian. A autora reforçou a ideia que os fãs perpetuaram de que Christian é um personagem vazio fruto de uma frieza fugaz com a qual se esquiva de toda e qualquer investida sentimental proveniente de seu próprio eu.

Christian Grey passa a ser então o alvo das atenções e mesmo na primeira página, em sua descrição crônica de sua rotina monótona o personagem já reforça os indícios de solidão e auto suficiência que tanto foram mostrados nos outros livros da série, reforça até mesmo a ideia de possessão e de obsessão por sucesso, que o leva a ter confrontos com outros personagens por conta de sua obsessão pela vitória em quaisquer meios e de quaisquer formas.

Passados alguns momentos dentro da história, percebemos que ao surgir a personagem Anastasia o cenário e descrição de perspectiva ao redor de Grey sofre uma conversão, os aspectos narrativos que sempre levam o leitor a monotonia e declínio emocional passam a sofrer uma mudança e levam o personagem (dessa vez, o próprio Christian) e o leitor a um nível de ascensão espiritual (voltada agora, no sentido mais puro da palavra, como defendido por Platão, a emoção) em que a monotonia é quebrada pelo surgimento de um terceiro elemento (tendo Christian como primeiro, próprio da narrativa e o cenário em que vive como segundo) sendo este o causador de tal mudança de perspectiva.

A introdução de Anastasia na história agora é um tanto quanto diferente do que no primeiro livro, pois tem-se a perspectiva de Grey, que ao ver a garota não se vê intimidado ou envergonhado (como no primeiro livro) mas se vê numa posição de euforia e desejo de obter aquela mulher, ressaltando mais uma vez a relação de poder e domínio sobre o outro, característica própria do personagem.

Em sua ascendência, Grey mostra nitidamente sua megalomania voltada para seu sucesso não apenas profissional ou pessoal, mas sim na questão de seu egocentrismo exagerado que se direciona sobre o controle das pessoas. Christian se vê como algo majestoso e para si próprio mantém uma relação de adoração e enaltecimento.

Esse paradigma é quebrado com o surgimento de Anastasia e o enaltecimento passa a ser concentrado na dita personagem, todavia a relação de prazer em submeter as pessoas à seus desejos continua a prevalecer nos pensamentos de Grey e, no momento em que percebe que Anastasia não seria submissa à ele de forma tão simplória (como todas as suas relações anteriores), essa recusa desperta no personagem o desejo incessante de tomar posse do corpo e da vida de Ana. Essa relação e esses aspectos podem ser vistos no clássico Otelo e na visão da face do mal de Iago de Otelo, personagem da trama de Shakespeare que tem, em sua essência, características semelhantes.

O desejo por ter controle sobre a vida de Anastasia irrompe em seu próprio ser sentimentos que antes estavam adormecidos e que surgem de forma avassaladora, fazendo com que o personagem entre em conflito com seu próprio ego e passe a mudar algumas de suas características. É possível notar no conflito do bar, por exemplo, a forma com que Christian passa a ser submisso à Anastasia e não o contrário, vê-se o tão fadado ao sucesso Christian Grey se arrastar e arruaçar em uma briga de bar para afirmar sua masculinidade e controle sobre o corpo de Anastasia. 

Tem-se a partir daí então, graças a perspectiva de Grey, a visão e entendimento de que Grey não controla Anastasia como imaginava-se que controlava e sim que esse controle passa a ser mútuo. O controle exercido por Christian se deve à possessão corporal e sexual da relação, onde ele domina o sexo e a inocência de Anastasia (visão que se mantém desde o primeiro livro). Em contrapartida tem-se a visão enfática em diversas vezes na própria cena do pub ou mesmo na cena em que ele se põe a ir até a loja onde a mulher trabalhava apenas para manter sua presença constante na vida da garota, essa influência que Anastasia exerce sobre Grey que o faz a todo momento querer manter-se por perto nada mais é do que o controle exercido por Anastasia sobre Grey, onde ele é dominado em seu âmago, sendo persuadido e obrigado (inconscientemente) a fazer tudo o que Anastasia quer, mesmo que com relutância.

Anastasia portanto não é apenas uma personagem inocente que está a mercê de todos os caprichos de Grey. A partir do momento da briga no pub ela percebe que têm controle sobre Christian e a partir daí tenta moldá-lo para que ele quebre sua barreira paradigmal de megalomania e passe a transferir esse excesso de egocentrismo e passe a enaltecê-la.

Em seus anais, o livro trata da relação de poder entre os personagens e é válido afirmar, em seu primeiro momento, que gostando ou não da autora (em referência a antipatia que ela adquiriu em decorrência dos livros anteriores), a relação da trama e a relação de poder que um exerce sobre o outro são elementos importantes para uma história. A trama ter um número limitado de cenários e fatos, tal como o enredo pouco trabalhado (e não tratando somente deste livro, mas sim de toda a série) acabaram por angariar críticas a respeito de um enredo mal desenvolvido. Outros fãs da série dizem que tais elementos não importam, pois o que importa na história é a relação de romance (colocando de lado quaisquer aspectos literários).

Em uma visão crítica da obra, não se pode dizer que o principal é o romance, ao menos não com precisão (a menos que você seja o próprio autor). É válido ressaltar que o universo do enredo se passa ao redor de Christian e que a verdadeira temática desenvolvida é a relação entre controlador e controlado, sadomasoquista e masoquista, consumidor e produto. Essas são as relações principais tidas do livro em um ponto crítico. O romance em sua essência é presente, mas não o principal. Essa visão é destacada nessa obra, GREY, em que é possível enxergar em sua totalidade os verdadeiros aspectos comportamentais e psíquicos de Christian, possibilitando a visão que antes era impossibilitada pela limitação de perspectiva dada somente à Anastasia.


(Espero que tenham gostado e semana que vêm teremos a segunda parte dessa análise, fiquem ligados!)

Sobre Fixação Literária

Fixação LiteráriaSomos jovens escritores que almejam um lugar nesse vasto campo que é o universo literário e termos a chance de acrescentar na amargura do mundo uma gota de criatividade, duas colheres de elegância e uma pitada de imaginação. Créditos imagem - Mell Galli
Recommended Posts × +

0 comentários:

Postar um comentário