Crônicas Urbanas 1 - A Exceção da Senador Dantas

Galera, mais uma crônica do nosso grande John!!

Confiram!

Crônicas Urbanas 1 - A Exceção da Senador Dantas 

Era só mais um dia normal, de correria na cidade que nunca para. Uma sexta-feira que aguardava com ansiedade, afinal, a semana havia sido conturbada e um descanso, a essa altura, merecido. 

Percebia que meu destino estava próximo, enquanto os Arcos da Lapa se revelavam durante uma breve apreciação da paisagem. Em uma súbita recomposição de consciência, notei que a playlist tocava insistentemente Divenire. Talvez Einaudi previsse o meu dia, e escolhera intervir dessa maneira. Mas o dia acabara de começar.

Após idas e vindas, deixando meus passos marcados no chão da Senador Dantas como se já houvessem decorado milimetricamente o ritmo dos dias anteriores, uma última tarefa para concluir os compromissos daquela manhã. 

Burocráticos como são, bancos costumam ser monótonos. Mas esse não. Havia algo que o diferenciava. Havia alguém. 

Escolhi um assento. Número 4, se não me falha a memória. Pessoas conversavam sobre suas vidas, mas nada que causasse algum sentimento de satisfação. Eram problemas, dores, desamores. Ignorava tudo o que podia. Minha percepção sobre a humanidade já estava abalada. 

Minutos se passavam e, enquanto muitos demonstravam impaciência, eu permanecia parado, concentrado. Tal concentração fora totalmente aniquilada quando uma exceção surge diante dos meus olhos. Uma exceção em um lugar inesperado. 

Aquela garota, uma mistura de Emma e Sybilla, transbordava espontaneidade e segurança. Talvez uma prepotência minha, associá-la à jovem e vibrante personagem de Azul É A Cor Mais Quente. Talvez não. 

Veio em minha direção. 
Rapidamente me recompus. Havia afazeres, havia foco. 

Perguntava-me sobre meus documentos e, em ordem, os entregava. Sua delicadeza era notável, tanto quanto sua disposição e profissionalismo. Aquele undercut se fazia notado em um ambiente convencional, onde o simples piercing que usava certamente já a diferenciava das demais. 

Enquanto conferia os documentos, preocupada em estar em todos os lugares e tratar a todos com justiça e atenção, virou-se para mim e apontou a ausência de um deles. 

“ - Está no mesmo bloco do anterior ”, expliquei, enquanto tratava de guardar outros que não seriam utilizados. 

Ela analisou, e lançando um singelo sorriso, encontrou o que procurava. 

“ – Tudo certo então, gatinho! ”, disse. 

E saiu. Continuava sua árdua tarefa de estar em todos os lugares, ouvir todas as vozes, solucionar todos os problemas. 

Enquanto finalizava minhas questões, a perdi de vista. Não restava nada mais, tratei de retirar-me da agência bancária. Sem olhar para trás, sem tentar avistá-la uma última vez. 

Talvez essa exceção seja apenas uma forma física do que a cidade demonstra de forma abstrata. 

Uma cidade viva, uma cidade pulsante. Uma cidade de mil possibilidades, mil personalidades. 

Uma cidade de exceções.
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>> Crônicas Urbanas 1 - A Exceção da Senador Dantas 
Jonnathan Loreno, Rio de Janeiro - 2015.


(Imagens - Créditos: DominusAuditoria)

Sobre Fixação Literária

Fixação LiteráriaSomos jovens escritores que almejam um lugar nesse vasto campo que é o universo literário e termos a chance de acrescentar na amargura do mundo uma gota de criatividade, duas colheres de elegância e uma pitada de imaginação. Créditos imagem - Mell Galli
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