O Calor da Rua Augusta - Crônicas Urbanas


Uma noite quente, diferente do que eu esperava. Imaginava as roupas grossas e pesadas que levei e não seriam usadas. Vesti a mais confortável e saí.

Pelo caminho, aqueles bares, teatros e cinemas me faziam perceber que ali era o local certo para estar. Permitindo-me experimentar cada sensação diferente a cada passo dado, não via o tempo passar enquanto cruzava a Rua da Consolação, cortando caminho pela Avenida Ipiranga. Sabia que em poucos minutos estaria onde, por algum motivo, aquela noite pudesse trazer surpresas.

A Rua Augusta ainda preserva sua singularidade; uma perfeita harmonia entre o efervescente comércio, as elegantes casas de shows, as descontraídas boates e os famosos prostíbulos. Um legado que será mantido.

Era quase meia-noite quando entrei no Inferno Club. Ali, no balcão, observava a vibração do ambiente enquanto bebia minha primeira dose de whisky, muito bem servida, diga-se de passagem. O dj mesclava o melhor do rock com batidas perfeitamente sincronizadas, enquanto a banda que se apresentaria na noite não sabia ao palco.

No momento que pedi outra dose, percebi que a atenção do barman se voltou para outra pessoa. Por reflexo, virei-me para entender o motivo da atitude inesperada. O motivo era indiscutivelmente justificável.

Do tipo que não precisa de muito para se divertir, ela havia parado, ao meu lado, levemente debruçada sobre o balcão. Impossível não ser notada, embora o local fosse reduto dos estilos mais alternativos da cidade. Uma das tatuagens, “wanderlust” no braço direito, me fez perceber que poderíamos ter pensamentos em comum.

Entre um gole e outro da Budweiser que havia pedido, lançava a mão sobre os cabelos castanhos, que combinavam com a cor vívida dos seus olhos, enquanto seus lábios saboreavam delicadamente o sabor em sua boca. Eu a observei por um tempo, dividindo as atenções entre analisar sua postura de quem sabe exatamente o que faz, e sua fênix alada tatuada na coxa, embora sua saia preta e sua meia-calça atrapalhassem a visibilidade.

Depois de alguns instantes, iniciei a conversa. Entre gostos musicais, vida profissional, sonhos e lugares para conhecer, a conversa fluía, porém, o local não era o lugar apropriado para isso. Ironia ou não, nenhum dos dois queria permanecer ali. Pagamos a conta e saímos. A cada metro percorrido pelas calçadas daquela rua movimentada, estávamos ficando mais íntimos. Tal intimidade nos levou para seu apartamento, razoavelmente amplo, que dividia com uma amiga. Um sorriso disfarçado surgiu rapidamente no meu rosto quando descobri que sua amiga voltaria apenas no dia seguinte. Nossa conversa mudaria.

Suas mãos macias e firmes mostravam-me o apartamento, enquanto conhecíamos as paredes do corredor.

As luzes dos prédios ao redor iluminavam o quarto e permitiam-me ver, agora nitidamente, a fênix. Vi a fênix viva, vi a fênix em chamas. Vi a fênix que renascia em meio ao seu ninho branco de lençóis.

Já amanhecia e o sol brilhava forte quando a fênix finalmente repousou. E eu me despedia, embora quisesse permanecer ali por mais tempo. Por muito mais tempo. Seria uma grata surpresa encontrar novamente a fênix alada que invoca e provoca os instintos mais ferozes dos homens. Quem sabe um dia, quem sabe um lugar, quem sabe uma outra vez.

Naquela madrugada quente em São Paulo, finalmente pude entender o significado da frase “A cidade que nunca dorme”.



>> Crônicas Urbanas 2 – O Calor da Rua Augusta 
Jonnathan Loreno, 
São Paulo - 2015.


Sobre Fixação Literária

Fixação LiteráriaSomos jovens escritores que almejam um lugar nesse vasto campo que é o universo literário e termos a chance de acrescentar na amargura do mundo uma gota de criatividade, duas colheres de elegância e uma pitada de imaginação. Créditos imagem - Mell Galli
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