Além da Noite - #1

Além da Noite

de Anderson Rodrigues
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 1

     Era uma manhã cinzenta e fria, Joe passara a noite toda acordado por conta de um pesadelo que teve com o maldito, embora querido e inofensivo Lhasa que havia ganhado, o motivo de ter ficado acordado pensando no pesadelo, era simplesmente porque não tinha sido um pesadelo e sim uma lembrança e ele sabia disso. Ao lado da cama, em cima do criado mudo, tinha uma foto dele, de sua irmã, de seus pais e de seu antigo cachorro, que provavelmente estaria no inferno sentado no colo de Lúcifer sendo acariciado, "aquele cachorro era o demônio em pessoa" pensava enquanto olhava o cachorro na foto.

     Joe levantou sem pressa, foi ao banheiro dar uma bela mijada, e olhava a cicatriz que tinha na coxa esquerda e no pulso direito, sempre pela manhã tinha que lembrar como fora feita, "aquele maldito me marcou pra sempre", enquanto se perdia em seu pensamento, ele mijava fora do vaso, se sua mãe estivesse por ali iria crucificá-lo, iria dizer que "homens são todos iguais, nunca acertam dentro da merda do vaso, sempre tem que mijar no chão, na borda e jamais abaixam a tampa".

   Joe foi tomar banho e embaixo do chuveiro a água caía fria em seu corpo, a respiração controlada - geralmente as pessoas pulam enquanto a água fria bate, tremem ou entram devagar, independentemente de o clima estar quente ou não -, no banho colocava os pensamentos em ordem, e adorava isso, a mecânica de como a coisa toda funcionava em sua mente, como o banho ajudava a colocar tudo em ordem depois de uma noite pensando no passado tão recente. Mas logo parava de pensar tanto nisso, porque Joe era viciado em masturbação, porra, qual o cara que tem 17 anos e nunca enfiou a merda do pinto em uma buceta e não é viciado em bater uma de vez em quando? Era sempre a mesma rotina, pela manhã durante o banho, antes do almoço, depois do almoço, no final da tarde, antes da janta, depois da janta, e antes de dormir; claro, se no meio da madrugada aparecesse a vontade, e quase sempre batia essa vontade, ele agarrava o membro já rígido e mandava ver. Às vezes ele admirava como conseguia fazer aquilo tantas vezes por dia, talvez fosse a idade, e se ele tivesse comendo uma garota ele teria a mesma força e o mesmo desempenho, certa vez ele leu em uma revista que ao se masturbar o homem aprendia a se controlar, e se fosse verdade, ele ficaria por horas a fio em cima de uma mulher.

     Essa era a rotina de Joe, estava sobrevivendo com o dinheiro que guardou de todas as mesadas que recebeu, diferente de quase todos da família, ele era controlado, ao menos tentava ao máximo ser, era difícil não gastar dinheiro com algumas Playboys.

     Joe estava decidido a sair de casa, tinha muitas lembranças ruins, e sair daquele lugar seria ótimo, era o melhor que tinha a fazer. 

   Joe pegou um caderno e ficou olhando para ele, pensando no que escreveria para os pais, e principalmente para a irmã. A irmã era mais velha, mas não passava de uma puta, já tinha conhecido a cama de quase todos os vizinhos, das vizinhas também, não sabia a mágica que ela tinha, porque ela levava quem quisesse pra cama, não importava se fosse homem, mulher, solteiro, casado, fosse quem fosse, ela só largava depois de uma bela trepada, e as histórias que ele ouvia por aí não era uma das melhores. Ele a amava, mas sentia ódio também, Deus a amava, e ela tinha que ser julgada por ele pessoalmente e logo.

     Enquanto Joe olhava para o caderno, ele ficou pensando em tudo, tudo o que aconteceu desde que ganhara de uma prima aquele cachorro, foi a alegria da casa, inclusive a dele. 


2

     Era um dia de domingo quando tia Elizabeth apareceu com um cachorro ainda filhote, com pouco mais de dois meses, era a coisa mais linda que Joe vira, e todos logo se apegaram a ele. Era um cachorro da raça Lhasa Apso, branco como a neve, lindo. Por decisão unânime o nome era Snow. Joe pesquisara na internet outros cães da mesma raça de Snow e vira que ele realmente era único, não tinha outro tão lindo como ele. Snow era branco, pêlos lisos, olhos castanhos claros, e ele parecia estar sempre sorrindo, um riso verdadeiro e amigo. Apenas aquele sorriso era o que Joe não gostava, era o sorriso que as vezes mantinha Joe longe. 

     Nas noites que se seguiram, Joe tinha pesadelos relacionados ao cachorro, o mais estranho era que não era apenas Joe, mas todos em casa tinha, com algumas diferenças, mas no contexto eram bastante semelhantes.

    Certa noite, Joe acordara de pau duro, era a tal da necessidade adolescente de tirar o estresse, enquanto se tocava, imaginando a professora de matemática - ele havia se surpreendido, todas as professoras que teve na vida, todas eram horríveis, velhas, principalmente as de matemática, mas a senhora Leila era maravilhosa -, enquanto se tocava e imaginava a bela professora de cabelos negros, pele branca, olhos esverdeados, os belos seios que ela parecia ter, ele tinha certeza disso, e ele começou com a tara pelos seios da professora depois de tê-la visto correndo, estava com uma blusa regata, sem sutiã ou algo para segurá-los, e teve certeza de que eram maravilhosos. Enquanto se masturbava pensando em Leila, Joe ouviu algo como um riso, e olhou na direção da porta, e viu olhos vermelhos como o fogo sentado à porta, ele segurou o grito, e ligou o abajur, embora a luz não ajudasse muito ele viu que era Snow, mas o garoto olhou para a porta, viu que estava fechada e não lembrava de ter deixado o cachorro em seu quarto, pelo o que lembrava, o cachorro dormia do lado de fora da casa, e ele estava em seu quarto, e ficou pensando de quem teria sido o riso que havia escutado. 

     Joe levantou da cama, com o pênis ainda duro, embora estivesse puto por conta do cachorro estar ali, ele ainda imaginava a professora Leila.

- Sai daqui seu filho da puta, volta pra sua ca...

     Joe calou por perceber que não tinha cachorro nenhum em seu quarto, ele ligou a luz, olhou debaixo da cama, e nada, a porta do quarto trancada, ele abriu a porta, desceu as escadas, foi até a sala, cozinha, e quando foi à  porta dos fundos, Snow estava deitado, parecia estar em um sono profundo, "eu estava sonhando, só pode", pensou Joe.

   Enquanto subia as escadas, ouviu um barulho do quarto dos pais, a mãe gemia alto pra caralho, aquele horário eles tinham certeza que Joe estava dormindo e Carol estava em algum lugar com as amigas.

   Joe voltou para o quarto rindo, em parte por achar que o cachorro estava em seu quarto, mas principalmente por ter escutado os pais transando, mas esse riso era de desconforto, não queria mais lembrar disso ao amanhecer. 

     Pela manhã todos estavam na mesa tomando o café, todos, menos Carol, ela nunca comia junto com eles, era sempre Joe, Bryan e Samantha. Samantha já havia desistido de Carol há muito tempo, tentava aconselhar, mas a filha não dava ouvidos. 

- Como foi o plantão dessa noite querida? - Dissera Bryan, e aquele assunto interessou Joe, como assim plantão? Mamãe estava no quarto transando com papai.
- Foi cansativo como sempre, esses últimos dias têm sido muito difíceis, trabalho de dia, de noite. Preciso de férias. - Joe olhava para os pais, e a lembrança do que escutara a noite voltou à sua cabeça.
- Imagino querida, sei como está sendo difícil, mas logo isso tudo acabará. Logo todos sairemos de férias. Agora deixem-me ir, tenho uma reunião agora cedo, sobre o projeto daquele prédio novo no centro da cidade. Cuidem-se. Joe, sua mãe precisa descansar, não faça barulho!

Antes que Bryan saísse, Carol apareceu, estava com um belo vestido verde, Carol, apesar da fama era linda, Joe achava a irmã parecida com a mãe quando mais jovem, Samantha era loira, olhos escuros, Carol era loira, olhos azuis, única diferença entre elas.   

- Bryan, pode me dar uma carona? - Perguntou Carol.
- Claro, aonde quer que eu te deixe?
- Na casa da Leila. 
- Leila? Professora Leila? - Joe quase não consegue conter o entusiasmo em sua voz, se perguntou se era mesmo a professora, e como a irmã a conhecia? E se a conhecesse provavelmente elas transavam.
- Sim, ela mesma! Por que a pergunta, pirralho?
- Nada, só queria saber!
     Bryan e Carol saíram e em seguida Joe saiu, dissera a mãe que iria na casa de Michael, mas ele estava seguindo o carro do pai, queria saber onde era a casa da professora Leila, o carro do pai tomou a direção de um estacionamento que naquele horário não passaria ninguém, e ele sabia qual era a reputação do estacionamento, "Estacionamento dos amantes", o resto não precisa dizer. Eles pararam e Joe observou de longe, e percebeu o que acontecia no carro, o pai e a irmã transavam lá dentro, Joe não percebia que chorava, os soluços que saíam, apenas observava o pai e a irmã transando. A transa durou pouco mais de quarenta minutos, depois que pararam deram um beijo apaixonado, ele sabia que era um beijo apaixonado porque era o beijo que a mãe dava no pai. O pai ligou o carro, engatou a marcha a ré e foi embora, Joe saiu de seu esconderijo, ainda sem perceber os soluços e as lágrimas que caiam sem parar, empurrava a bicicleta enquanto lembrava como o carro balançava, os vidros embaçados, as mãos de Carol no vidro, o gemido baixo que saia do carro. Joe foi direto pra casa, quando chegou já não chorava mais, mas os olhos vermelhos e inchados entregavam o choro, "então era eles que estavam transando no quarto", pensou. 

     Carol era meia irmã de Joe, ela era filha apenas de Samantha, quando Bryan a conheceu, Carol já tinha oito anos. Joe ficou imaginando há quanto tempo isso acontecia, e se sua mãe sabia ou desconfiava de algo. 

     Ao chegar em casa teve a impressão de que Snow ria dele, um riso zombador, e um olhar acusador, Joe olhava para Snow, e pela primeira vez viu o cachorro sentado com uma pose esnobe, ele sabia que era loucura, mas tinha certeza que era isso mesmo, o cachorro estava zombando dele. Ouviu um barulho na cozinha, podia jurar perante a Deus que Snow indicou com a cabeça que ele fosse até a cozinha, e foi o que ele fez e ao entrar, viu a mãe em cima da mesa, com as penas abertas sendo seguradas pelas mãos de um homem, e esse homem não era um desconhecido, ele já havia jantado com eles, ele, sua esposa e sua filha. O homem ao olhar para Joe, sorriu e deu uma piscada para ele, o fez enquanto entrava e saía de Samantha, ela apenas segurava os seios e gemia alto, intercalando entre gritos e pedidos. Joe encarava o homem com ódio, enquanto ele apenas olhava o garoto com ar de vitória. O homem gritou "vou gozar em você vadia gostosa" enquanto olhava para Joe, "Tome um pouco do meu mel, meu amor", e mais uma vez ele piscou para Joe, abaixou e deu um beijo apaixonado em Samantha, e Joe sentiu algo quebrar dentro dele, sua família era louca, Deus precisava ter uma conversa pessoalmente com os três. Antes que o homem terminasse de beijar Samantha, Joe correu para o quarto, não bateu à porta, fechou com todo cuidado para que não fosse escutado, a trancou, colocou pedras pontudas no pé da cama, tirou a roupa, ajoelhou, juntou as mãos e fez uma oração silenciosa, pedindo perdão a Deus, que perdoasse a família, e perdoasse tantas outras famílias pecadoras. Ficou naquela posição por duas horas, depois levantou, deitou na cama e começou a chorar, dormiu sem perceber. Acordou com o cachorro sentado na cama, sorrindo para ele
.
- Olá, Joe!

Joe tentou gritar, mas ele apenas dormiu mais uma vez.

Sobre Fixação Literária

Fixação LiteráriaSomos jovens escritores que almejam um lugar nesse vasto campo que é o universo literário e termos a chance de acrescentar na amargura do mundo uma gota de criatividade, duas colheres de elegância e uma pitada de imaginação. Créditos imagem - Mell Galli
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3 comentários:

  1. Quando lança a segunda parte? Quero mais! Rs

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  2. Quero a segunda parte!

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  3. Realmente kkk Quando sai a segunda parte?

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