As vozes dos silenciados clamam - 70 anos depois

Olá queridos leitores da Fixação Literária!

Galera, essa semana nós recebemos um artigo especial enviado pelo meu grande amigo Leonardo Lopes, um artigo muito interessante ao qual tive o prazer de ler e fazer um pequeno prefácio para iniciá-lo aqui.

Esse artigo aborda a questão das vozes dos silenciados anos após o holocausto. O artigo é excelente e realmente nos faz pensar sobre muito do que ignoramos. Com vocês o meu solene prefácio e o artigo do meu grande amigo - e exímio professor - Leonardo Lopes da Silva.

     "As pessoas se esquecem do agouro que os semelhantes passam, se esquecem também dos gritos de horror e dos clamores regados de sofridão que ecoam das vozes das almas desesperadas. Mesmo quando não percebemos, os clamores permanecem ecoando, na esperança de que alguém os recorde, a esperança de que alguém lembre dos sacrifícios. 
     O tormento dos mortos pode ou não perdurar - não sabemos - mas sabemos, com a certeza de nossas consciências, de que o maior tormento permanece vivo e presente nas almas dos que sofreram, nas dos que foram esquecidos e na dos que presenciaram e porventura sobreviveram. Seus corpos podem ter sobrevivido, mas suas almas, estas pereceram nos campos de batalha".

- Iago Victor sobre As vozes dos silenciados clamam.


As vozes dos silenciados clamam - 70 anos depois

Por: Leonardo Lopes da Silva

Numa era de esquecimentos, revisões e reedições da História, sejamos testemunhas e portadores dos candeeiros que alumiam os rostos das vítimas do Holocausto nazista, na noite em que retornam a nossas mentes e corações, rogando-nos para nunca nos esquecermos, cantando, orando:





 Conceda paz a Israel, o Vosso povo, para sempre
 Pois sois o Deus Soberano de toda a paz.
Que seja agradável a Vós abençoar o Seu povo de Israel
 Em cada estação, em cada momento, com a Vossa paz.

 Que no Livro da Vida, com bênçãos, paz e prosperidade,
 Possamos ser lembrados e inscritos por Vós
 Nós e todo o seu povo de Israel, para uma boa vida e pela paz.
Abençoado sois, Adonai, que nos traz a paz.

     Quando na quarta-feira, dia 27, foi anunciado a celebração dos 70 anos da libertação do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, e o Dia Internacional de Lembrança do Holocausto, senti, como em outras ocasiões neste ano, uma constrição na garganta e no pulso. O que eu teria a dizer de diferente de outras muito mais talentosas e eloquentes pessoas, que expuseram o seu pesar em palavras, canções e orações, e atos? Creio que o meu silêncio foi importante e necessário, pois precisei dele para afiar os meus ouvidos. Tatear pelos escombros. Para poder escutar melhor. E ouvir o murmúrio das pedras. Calar a cacofonia de Trumps e misoginias e as cirandas de corruptos-corruptores.

    Assim eu os pude escutar. Aqueles cujas vidas não se discutem, mas cujas mortes em massa, executadas em escala industrial, assustadoramente eficiente, são ainda motivo de uma inacreditável e lamentável discussão. Vidas de todos os tipos, tamanhos, personalidades, sonhos, mesquinharias, virtudes, defeitos. Milhões de vasos contendo o fluído e sopro sagrado que poderiam ter colorido e temperado o mundo um pouco mais. Eles vêm com o Shabat, com o sábado divino. Vêm para procurar repouso. Vêm para procurar paz.

   Vi os seus nomes, inscritos em caligrafia de escriba, tomando conta de todas as paredes da sinagoga de Pinkas, em Praga. Não há espaços em branco. Não há tempo para ficar entediado enquanto ajusto a quipá no topo da cabeça. Eles são as inscrições das pirâmides da era industrial e moderna. São os nossos registros de colheita. A ceifa de um povo de peregrinos. Imigrantes. Distintos. Estranhos.


Ou seriam tão estrangeiros, tão culpados assim aqueles que foram um dia vizinhos, médicos de família, comerciantes, professores, colegas, amigos, amantes? Tão separados, tão ocultos, por outra língua, outra religião, outros rituais?

Neste Shabat, eles caminham, vagueiam, transitam, cambaleam, pelas avenidas, bulevares e parques da Europa e do mundo, vivos-mortos que são, seja de mãos dadas ou atadas, ou a portar algo de sua mais urgente necessidade:


Lilli procura o endereço que consta na mala, mas não mais no Google Maps.



Miša procura por alguém que possa entregar a sua carta à sua mãe:

     "Querida mamãe! Como está? Ainda está morando nas casernas de Hamburgo? Ainda no mesmo quarto? Ainda dormindo no chão? Não pega muito ar frio o chão? Boa noite. 20/01/43. Hoje a enfermeira me acordou para tirar a minha temperatura. Mantive os olhos bem fechados de novo. Há uma enfermeira chamada Scholz aqui que te conhece. Eu devoro todo o meu pão. Se tiver tempo, escreva-me uma carta longa, fico tão feliz quando recebo suas cartas longas. Ontem a Irmã do turno noturno chegou muito chateada, porque havia um transporte às 8 horas, e as pessoas tinham que ser transportadas às 4, e às 8 horas de hoje as pessoas já partiram para Bauschowitz. Tudo está acontecendo tão assustadoramente rápido. Será que ninguém pode protestar contra isso, de alguma forma.? Quantas pessoas tiveram de ir? Hoje ao meio dia esperei por ti, e você não apareceu à janela. O Eugen e o Tycek também não vieram. Estava tão preocupado por vocês todos. E depois a minha febre ficou um pouquinho alta. Não importa. Na verdade, estou safo se eu tiver um pouco de febre. Hoje à noite as luzes foram desligadas. A enfermeira chefe recebeu a notícia e nos contou que não haveria luz até o dia 1º de fevereiro. Ficamos todos muito tristes. E eu não tinha terminado de escrever a minha carta. Estava no meio de uma frase quando a luz caiu. Estava com tanto medo que não poderia
      Terminar de escrever esta carta e que não poderia mandá-la para ti. Não posso escrever mais cedo, não até às 10, e depois fica muito tarde. Mas um milagre aconteceu. Quando acordei, a luz estava ligada! Dá para ver como o querido Deus nos ajuda? Agora eu terminei a carta. Hoje achamos dois ratos. Hoje a médica achou um piolho num menino e disse que passaria a máquina zero no cabelo de todos nós na segunda. Anteontem, ontem e hoje eu escovei os meus dentes. Já estou ansioso pela hora do almoço amanhã, pois poderei te ver e falar contigo. O Eugen Berger estava à janela de novo, é provavelmente a última vez que o verei na minha vida. Ele está indo embora para a Polônia, nem pude dizer adeus a ele pois a médica estava aqui, fazendo a sua ronda. Estou tão chateado!

Do seu Miša"

Ou simplesmente, procuram um local para pendurar o desenho feito na escola do campo de concentração de Terezin, na Checoslováquia:
  


     Os milhões estão em peregrinação, à procura de seu lar. Não desejam ser usados como indutores de culpa ou de justificação para atos bárbaros. Não querem vinganças, nem compensações ou recompensas. Não vislumbram perdas ou ganhos políticos e econômicos. Apenas nos contemplam, com o ar gélido de quem não pode mais julgar ou concordar ou discordar, e seguem adiante, com a canção/oração sussurrante como o vento nos lábios, e a leve insinuação de um raio de luz dourado no horizonte, a saudá-los de volta à casa.



Sobre Fixação Literária

Fixação LiteráriaSomos jovens escritores que almejam um lugar nesse vasto campo que é o universo literário e termos a chance de acrescentar na amargura do mundo uma gota de criatividade, duas colheres de elegância e uma pitada de imaginação. Créditos imagem - Mell Galli
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