Além da Noite - #2

Além da Noite - #2

1

   Joe havia desmaiado ao ver Snow em sua cama conversando com ele, ao perceber que estava acordando, abriu os olhos devagar e pôde ver que Snow estava sentado à porta fitando-o, Jon manteve os olhos fechados, rezando naquele momento para as paredes, ele tinha certeza disso, porque falava coisas sem sentido em sua cabeça, com certeza ninguém entenderia o que ele estava dizendo, se nem ele que era dono dos pensamentos entendia, imagine Deus. 

- Eu sei que você já acordou garoto! - Dizia a voz que saia de Snow, já sem paciência. - Abra esses olhos e me encare de vez por todas seu pirado maldito!

   Jon abriu os olhos, o calafrio percorria sua espinha, seu corpo tremia e suava exageradamente, e ele sentiu que o sorriso que o cachorro dera era por sentir o medo que exalava de Joe. 

- Isso, criança. Já era hora de nos encontrarmos, não?
- Que merda é você?
- Seu cachorro, idiota. Não vê? - o deboche do cachorro fez uma mistura de medo e raiva em Joe. Mais medo, ele tinha certeza, o estômago doía por isso!
- Não fale assim comigo, você acha que é quem? - Joe gritava.
- Não grite, criança. Seus pais podem te ouvir e pensar que você é louco, primeiro conversando sozinho e depois gritando a essa hora?

   Joe olhou no relógio que tinha no criado, era algo que tinha comprado em um bazar há alguns anos, era um relógio antigo, porém, tinha uma aparência de novo. O relógio marcava três e quinze da manhã, mas era dia do lado de fora, Joe podia escutar o riso das crianças, pessoas conversando, carros passando. "Talvez o relógio tenha quebrado e eu não percebi isso", pensou Joe. Realmente, ele não percebia nada. Não entendia nada.

- Olhe Joe, desde o dia que cheguei aqui, tive um enorme carinho por você, um rapaz de coração puro, e sua família? São um bando de desajustados, todos loucos. Mas você não, meu jovem. Você é diferente, tem amor e temor pelo chefão lá em cima, isso me dói o estômago de tanta felicidade.
"Sabe, Joe? Você é surpreendentemente sobrenatural, consegue até conversar com um cachorro. Senti o ódio que vem do seu coração, garoto. Senti no momento em que veio correndo pra cá. Senti sua oração para o Cara enquanto estava de joelho, mas sua oração tinha ódio. E sabe de uma coisa garoto?" - Snow agora estava em pé, maior do que um cachorro de pequeno porte, enquanto discursava, Joe podia jurar que o cachorro crescia, sua voz mudava para algo gutural, a medida que aquilo crescia, sua voz mudava para algo horrendo, Snow já estava bem maior que Joe. - Eu... Amo... O ÓDIO! - Snow tomou a forma de um monstro demoníaco.

  Joe começou a gritar, o choro veio, o cheiro de coisa queimada e enxofre invadiu o quarto, a podridão entrou no nariz de Joe, o calor que fazia dentro do quarto era sufocante, Joe chorava, tremia, e o que um dia fora um cachorro era agora uma besta, um demônio. Snow agora tinha enormes mãos, tinha garras, nada de chifres, e sim, enormes cabelos e um enorme buraco entre o olho e a orelha esquerda, um buraco que parecia ter sido feito por algo extremamente afiado. Os olhos era negros e assustadores, a língua era enorme e partida em dois, entrava e saía tão rápido quanto a língua de uma cobra, os músculos rasgados e podres brotavam de Snow, sua cor era verde escuro, como se tivesse uma crosta de fungo, o pênis enorme que pendia dele, um dos pés tinha uma pata, o outro era casco. Joe já não gritava mais, mas gemia, soluçava, tentava não olhar mas algo o forçava a olhar.
   A coisa em que Snow havia se tornado tinha mais ou menos três metros de altura, Joe sabia disso por conta da altura do teto de seu quarto,  seu pai havia lhe dito que do chão até o teto teria mais ou menos quatro metros, e Joe acreditava em Bryan.

- Eu vou limpar sua família garoto. Vou matá-los, você quer isso. Quer limpar o mundo, não quer? Então limparemos juntos. - Dizia a besta enorme.
"Eu vou matar cada um, vou arrastá-los comigo até minha casa. Sabe onde moro, Joe?" - a coisa tinha um sorriso enorme, onde mostrava os enormes dentes pontudos, amarelados, visivelmente afiados e espaçados.
- No inferno? - balbuciou Joe, de uma forma que quase não pôde ouvir.
- Responda mais alto seu insolente! - Berrou a coisa, que fez tudo no quarto de Joe estremecer.
- No inferno, porra! - Gritou Joe. - No inferno!
- Isso. Isso mesmo. E sabe o que gosto ainda mais que o ódio nas pessoas? - A coisa olhava com malícia nos olhos de Joe, a língua entrava e saía de sua boca, ora como o de uma cobra, ora lambendo os lábios.
- Não faço ideia! - Disse Joe com a voz mais firme.
- O medo! - A coisa sorriu, o chão estremeceu mais ainda.

   Joe olhou para a janela e viu o céu vermelho sangue, fogo caindo do céu, pessoas gritando de pavor, pessoas crucificadas de cabeça pra baixo e sendo chicoteadas, demônios estuprando mulheres e homens. Joe quando percebeu, estava amarrado, completamente nu, demônios o cercavam, e começaram a chicoteá-lo, morde-lo. Ele deu um último olhar para Snow.

- Bem vindo ao meu lar, Joe!

2

- Joe? Joe? Acorde! - Samantha balançava Joe preocupada, o filho estava dormindo, gritava de forma assustadora, Bryan estava na porta olhando o filho gritando, e cada vez que gritava aparecia marcas em seu corpo. 

   Joe estava deitado na cama, sem roupa, e apareciam marcas no filho, os gritos apavorantes de Joe, Bryan olhou para o pé da cama, ao lado do criado mudo, estava Snow, sentado, observando aquilo tudo. Samantha chorava e sacudia o filho.

- Vem garoto, não precisa ver o que está acontecendo! - Bryan segurava o choro, não entendia aquilo.Tirou Snow do quarto, e fechou a porta e caiu aos prantos mesmo sem entender o porquê.

   Quando tirou o cachorro do quarto, Joe parou de gritar, Samantha olhava o filho, via aquelas marcas em seu corpo, em seu pulso apareceu marcas de uma cicatriz, como se tivessem sido furadas, em sua testa tinha pequenos furos, o que ele percebeu em seguida que aqueles furos estavam ao redor de sua cabeça. Joe abriu os olhos, estáticos, vazios. Quando Joe abriu a boca, o cheiro que saiu dela fez Samantha chorar, o cheiro era horrível. 

- Ele vem matar todos vocês! - Disse Joe para Samantha. - Todos! - Joe sorriu em um tom de voz que não era dele, parecia uma mistura de vozes, mas nenhuma era a dele. 

3

- Joe? Joe? Acorde! - Samantha tocava nele gentilmente! - Hora de ir pra escola!

Joe abriu os olhos devagar, olhava o belo rosto de sua mãe, pensava o quanto ela era linda.

- Aí, mamãe, não estou bem! - Disse Joe abatido, e Samantha sabia que Joe não mentia, era visível como ele estava.
- O que houve, querido?
- Tive sonhos horríveis. Um atrás do outro, sabe? Foram realmente horríveis. Primeiro tinha o Snow, depois tinha você chorando ao lado da minha cama e eu via alguma coisa matando vocês. 
- Joe, foi apenas um sonho ruim, só isso. Não vejo motivos para você ficar assim e querer ficar em casa sozinho durante o dia todo. Venha, você só precisa de um bom banho. - Samantha ia saindo do quarto. - Desça logo, não quero me atrasar para o trabalho. Não me faça perder o horário, mocinho. - Samantha saiu com seus enormes cabelos ruivos, lindos. Joe amava quando o sol batia neles e refletia, era a cor perfeita, ele havia encontrado a cor perfeita.

4

   Joe ficou quieto durante todo o caminho de casa até a escola, estava tentando assimilar tudo o que havia acontecido naquele dia, lembrava que não tinha ido a aula pois estava fechada para vistoria, e foi lembrando aos poucos do que fez, mas também tudo poderia ter passado de um sonho. Talvez seus pais e sua irmã não eram loucos, e claro, Snow era apenas um cachorro fofo. 

- O que foi, Joe? Ainda pensando no pesadelo? - Perguntou Samantha.
- Nada, mãe. Sério, estou bem. Vai trabalhar o dia todo?
- Sim, tenho plantão e seu pai viaja para Seul, coisas do trabalho dele. Carol deve ficar na rua como sempre. Sua tia Claudia vem pra passar a noite com você. Então, você e Snow terão companhia.
- Tia Claudia. Tem tempo que não a vejo. - Joe percebeu que tinha um sorriso em seu rosto, mas não tinha vontade de rir.
- Verdade. Ela trabalha muito, sabe disso. Mas realmente tem tempo que ela não vai lá em casa. Ela mesma que se prontificou para ficar com você. Até porque, você sempre ficou sozinho. Mas como sei que vocês se gostam, achei uma boa ideia.
- Sim. Verdade, mãe. Não a vejo desde quando ela me deu o Snow.
- Sim, então provavelmente quando você chegar em casa ela já estará lá. Comporte-se, amanhã pela manhã estarei em casa, tudo bem?
- Sim. Bom trabalho!
- Boa aula! - Joe ia saindo do carro. - ei garoto, e cadê meu beijo? Está se tornando daqueles adolescentes que tem vergonha de vir até a escola com os pais e dar um beijo na mãe na frente dos amigos?
- Claro que não. - Joe voltou sorrindo e deu um beijo de despedida na mãe.

   O dia passou devagar, Joe não estava bem, e isso era visível para todos. Quando perguntavam Joe apenas dizia que queria ir logo para casa. Ele não parava de lembrar dos sonhos, ficou se perguntando se tudo realmente foi um sonho, e se aquilo ali agora, era um sonho. 
   Joe foi pra casa caminhando, o caminho era realmente longo, de carro o trajeto era de vinte minutos, o dia estava quente e Joe precisava respirar, precisava de um tempo sozinho, precisava ficar sozinho antes que encontrasse a tia em casa. Aquele era o dia que ele precisava ficar só, mas a mãe arrumou uma babá, ele realmente gostava da tia Claudia, mas aquele dia, o que ele realmente precisava era ficar sozinho.
   Chegou em casa e já tinha comida na mesa, ele lembrou logo que sua tia jantava cedo, algo em torno das dezenove horas, mas sempre mais tarde tinha o lanchinho da noite, em torno das vinte e duas.
   Claudia estava terminando de arrumar a mesa quando Joe a viu, ela veio em sua direção com o sorriso ao vê-lo. Claudia era uma mulher muito bonita, era a irmã mais velha de Bryan, tinha olhos castanhos, cabelo cor de mel, em torno de quarenta e nove anos mas com cara e corpo de vinte e poucos. Claudia tinha um belo corpo, seios de médios para grandes, de certa forma enormes porém em forma, juntamente de seu corpo. Tinha um belo sorriso, "que traseiro, titia", pensava Joe toda vez que a via. 
   Claudia por muito tempo fora a paixão de Joe, e consequentemente, a razão por ele descobrir a masturbação, o alívio que vem logo depois do gozo, titia de alguma forma o ensinou algo valioso. 

- Oi, Joe. Como está me sobrinho favorito? - Dizia a tia extremamente e exageradamente linda.
- Eu sou seu único sobrinho. Mas estou bem. - Joe ria de verdade pela primeira vez naquele dia.
- Ora, não é de todo verdade. Esqueceu da louca da sua irmã? 
- É, mas de qualquer forma, sou seu único sobrinho.
- É, acho que tem razão! Venha cá, me dê um abraço.

   Aquele abraço fez Joe lembrar de sua infância, seu rosto enterrado nos seios de sua tia, seu braço em volta de sua cintura fina e firme, e em consequência, o pau duro. 

- Minha nossa, Joe. Você veio andando? Todo suado e fedendo. Tem coisas que não me orgulho de lembrar da puberdade, sua demais, fede demais. Vá tomar um banho para jantarmos. - Claudia ria da situação, mas Joe não, ficou com vergonha.

   Joe estava indo para o banho quando sentiu um calafrio em sua espinha, começou a tremer, o medo fez doer seu estômago. "Bobagem", pensou ele, subiu as escadas e foi tomar seu banho. Enquanto banhava, Joe pensava na tia e fez debaixo do chuveiro o que todo garoto de sua idade faria. Saiu do banheiro completamente renovado, sua mãe tinha razão, um banho sempre revigora.
   Joe desceu as escadas, Claudia estava quase saindo quando ela o viu descer.

- Joe, vou ao mercado comprar alguns refrigerantes e pipoca para mais tarde, quer algo? 
- Não, obrigado. Mas por que você não fica? Eu vou ao mercado para você. 
- Pode ser. Nunca se deve recusar a generosidade de um cavalheiro! - Claudia piscou de um jeito que Joe pensou ter sido com malícia, mas tudo para Joe envolvia malícia. 

   Joe estava voltando do mercado quando ouviu um grito vindo de sua casa. Ao chegar na porta, viu Carol parada, de olhos fechados. Joe olhou para dentro da casa e viu sangue, móveis jogador no chão. Quando entrou, vomitou logo em seguida.
   Em pouco tempo a polícia estava isolando o local, Samantha chegou pouco tempo depois da polícia tomar o depoimento de Joe e de Carol. Vizinhos não escutaram qualquer coisa, só os gritos de Carol. 
Joe, Samantha, Carol e Snow não dormiram em casa naquela noite. Samantha já havia conversado com o marido, e ele embarcará no voo trinta minutos atrás, eles estavam na casa da mãe de Samantha, a casa ficaria isolada para a perícia por algum tempo. 
   Joe olhava para Snow, que retribuía o olhar. Alguma coisa dizia que o cachorro estava por trás, ele tinha certeza de que nem tudo fora um sonho. Pelo menos até onde Snow mostra quem realmente é.

5


   Joe estava no quarto, já não chorava mais, havia gastado todas as lágrimas que podia derramar por um dia. Ouvia do quarto a mãe aos soluços conversando com pai pelo telefone, Carol estava em choque, estava dormindo antes mesmo da mãe chegar, tinham dado algo para que ela apagasse. 
   Joe estava pensando em tudo o que aconteceu, que talvez ele poderia estar morto e não a tia, se ela tivesse ido ao mercado, ela teria o encontrado morto. A culpa estava presente, apenas isso. 
   A porta do quarto abriu devagar, era para ela estar trancada, depois ele teve certeza de ter escutado ela destrancando e abrindo. Por ela, entrou Snow, subiu na cama, sentou e fitou Joe nos olhos. 

- Sabe que horas são, criança? - Disse Snow.

   Joe começou a sentir tudo o que sentiu na noite anterior, o medo, o cheiro. Tudo voltou de uma vez, ele sentia que iria desmaiar, e antes que desmaiasse, olhou as horas: 03:15 a.m.

Sobre Fixação Literária

Fixação LiteráriaSomos jovens escritores que almejam um lugar nesse vasto campo que é o universo literário e termos a chance de acrescentar na amargura do mundo uma gota de criatividade, duas colheres de elegância e uma pitada de imaginação. Créditos imagem - Mell Galli
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6 comentários:

  1. Respostas
    1. Nós pedimos desculpas querido leitor.

      Nossa equipe passa por sérios problemas e os prejudicados são sempre vocês :/ Mas isso vai mudar. Eu (Iago) falarei sobre isso nosso canal do youtube: https://www.youtube.com/user/Manolao111

      Mas saiba que nós vamos sim voltar com tudo!!

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  2. Até que enfim hein! Vocês estão brigados é?! cadê os outros escritores??

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  3. Não estamos brigados, mas estantes alguns problemas internos, onde eu (Anderson) e o Iago estamos vendo soluções cabíveis e passificas. Apenas nos dois escrevemos e postamos, e quando um dos dois adoecem, ou os dois, como aconteceu na última vez, nada é postado!
    Mas isso vai mudar, o Iago e eu estamos com novos planos, ideias e um escritor novo, para tirar essa carga de cima de nós e poder trazer um ótimo conteúdo!
    Fiquem ligado!
    Vocês são a Fixação Literária!
    Abraço!

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  4. To vendo que esse Joe vai passar a rola na mae dele kkkk

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    1. Vamos aguardar o terceiro capítulo que sairá essa semana. Tudo pode acontecer! Kkkkk

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