Além da Noite - #4 Final

ALÉM DA NOITE - #4

Parte 4/4


1


   Joe estava no banho, estava cansado de tudo o que vinha acontecendo, os acontecimentos que ele próprio estava presenciando, o que acontecera com sua tia.
   Joe estava lembrando do sonho que tivera, o que viu, se aquilo realmente estava acontecendo com sua tia, o porquê de Snow ter feito aquilo com ela. Ele nunca contara o que acontecera para os seus pais, Joe agora chorava, estava com medo, sempre sentiu medo, mas só agora ele estava admitindo isso. O medo que estava sentindo estava fazendo tudo doer, dos pés à cabeça.
   Joe terminou o banho e foi para frente do espelho, enquanto se olhava, via seus olhos vermelhos fixos nele, Joe sorria, mas ele tinha certeza que o sorriso era apenas no espelho, ele não ria, e viu algo atrás dele. Foi se aproximando do espelho, e o reflexo dele continuava sorrindo, até que uma mão saiu do espelho, e quando ele percebeu, pelo reflexo ele viu algo negro com olhos vermelhos e presas enormes, ele era enorme, todo o seu corpo arrepiou, a mão que saíra do espelho era a desse monstro, sua língua era dividida em duas, ele era de alguma forma parecido com o verdadeiro Snow. A coisa segurava seu pescoço, o jogou contra a parede, a coisa sorria, o suspendia e apertava seu pescoço, passou a língua em seu rosto, e atacou seu rosto.
   Joe acordou, ele estava debaixo do chuveiro, estava sentado, com a cabeça apoiada nos braços que pousavam nos joelhos dobrados. Joe levantou, se secou e foi para dentro do quarto sem olhar para o espelho, ele tinha certeza de que havia algo no seu espelho. Sempre tem, certo?
  Joe deitou na cama e as imagens vieram, tudo era vívido e sombrio. Quando de repente ele ouviu gritos, janelas batendo, pedidos de socorro. Antes que pudesse levantar, ele viu Snow na porta de seu quarto que estava fechada. Snow estava sentado, sorria para ele, ao menos era isso que ele via no escuro, e tinha certeza de que o cachorro realmente sorria para ele, e aquele sorriso deixava o rosto do cachorro quase humano, o sorriso foi crescendo, ele colocou a língua para fora.

- Acho melhor rezar para o seu Deus, garoto! – Disse Snow com o sorriso que congelou Joe completamente.

   Joe já estava rezando, uma reza silenciosa, muito antes de Snow aparecer, ele já estava rezando, Joe ainda guardava marcas de sua última reza com penitência própria.
  Joe encara o cachorro, enquanto o encarava pedia proteção e coragem para o que tinha decidido fazer, e o cachorro não podia sequer saber o que ele estava pensando.

- Eu castiguei todos eles, Joe. Do jeito que você queria, não é mesmo?
- Que horas são, Snow? – Joe disse de cabeça baixa.
- Como? – Disse Snow surpreso.
- Eu te perguntei: “Que horas são?"

   Joe pulou na direção do cachorro com um crucifixo enrolado em cada punho. Snow se transformou antes que Joe chegasse perto dele. Joe conseguiu acertá-lo. Snow grunhiu, e ficou ainda maior. Mais do que já era.



2


   Carol estava entrando em casa quando ouviu os gritos no andar de cima, e correu deixando a porta aberta, quando abriu a porta do quarto dos pais, viu algo em cima da cama deles, o que quer que fosse estava agora olhando para ela, sorrindo.
   Ela tentou correr, mas apenas conseguiu gritar por socorro, e enquanto gritava foi surpreendida por um soco fazendo com que ela apagasse.
   Quando acordou estava amarrada, de frente para os corpos mortos de seus pais. Os três estavam na cozinha, amarrados nas cadeiras, ela sabia que estava sangrando, sentia o gosto dentro da boca, e algo molhado descia sobre seu olho direito que estava inchado. Estava com a boca amarrada, ela conseguiu ver que a porta da sala que havia deixado aberta estava agora fechada, e Joe não estava entre eles. Provavelmente ele tinha conseguido fugir, e ela sentiu um pequeno alívio surgir, porque se ele havia conseguido fugir, logo a polícia estaria ali. Samantha começou a rezar, mas sempre se distraía por conta dos corpos de seus pais que estavam a sua frente.
   Ela lembrou do dia em que viu o irmão rezando, pedindo para Deus curar sua família de pecadores, e que o fizesse esquecer o que vira. Ela pensou em contar para a mãe que o irmão estava fantasiando que ela estava transando com Bryan e que Samantha estava com um outro amante, e que deveriam conversar com ele para entender o que estava se passando pela cabeça dele. Ela já tinha feito algumas pesquisas sobre isso, o irmão estava vendo coisas, fantasiando coisas. Ela sempre o escutava falando sozinho de madrugada, o ouvia perguntando para ele mesmo as horas. Ela ouviu um barulho nas escadas, o que quer que seja que estava na casa quando ela chegou, estava descendo as escadas, e provavelmente a polícia não chegaria a tempo.
   Quando a coisa chegou e parou de frente para Carol, ela apenas começou a chorar, ela não poderia dizer nada, não poderia gritar, o choro veio, e a certeza de que morreria veio junto com ela.
   Os pais estavam mortos, ela seria a próxima, e ela teve certeza de que a tia também fora morta por aquilo que estava em sua frente. Sua expressão era de fácil compreensão, ela não acreditava no que estava vendo, a coisa que estava parada a sua frente sorria, abaixou perto dela e lambeu seu rosto.

- Que horas são, Carol?

   Sorriu histericamente, Carol estava agora com mais medo, o choro veio com mais força, lágrimas brotavam como nunca, seu corpo todo tremia, ela começou a se mexer para tentar se soltar e quem sabe conseguiria, iria correr e gritar para todos na rua, iria se salvar.
   Carol foi golpeada em sua barriga várias vezes, algo pontudo entrava e saia sem parar, a primeira vez que entrou era gelado, depois estava quente, seu sangue havia esquentado aquilo. O mundo ao redor começou a escurecer e ela parou de tremer, tudo estava ficando leve, estava ficando frio, porém estava tudo calmo, ela olhava os rostos de seus pais, estava pensando o quão linda era Samantha, e quão grata era Bryan por ter sido um pai completamente diferente do dela, por tê-la criado como se ela fosse dele.

- Que Deus tenha piedade de sua alma! – Alguém gritou enquanto ela mergulhava na escuridão.


3


   Bryan e Samantha olhavam para aquilo que estava na frente deles. Antes que Bryan pudesse falar mais alguma coisa, ele foi golpeado na boca, atravessando de uma bochecha a outra, fazendo sua boca abrir. Samantha começou a gritar.

- Samantha, Samantha. Você é a próxima!
- Para com isso, por favor. Por que está fazendo isso?
- Eu vim puni-los, por tudo o que vocês fizeram.
- Mas o que fizemos para você?
- Para mim? Não. Não a mim, mas a Joe. Para ele que vocês fizeram mal.

   A porta do quarto abriu e Carol viu algo em cima da cama dos pais, antes que ela pudesse fazer um barulho maior do que já estava fazendo, ela desmaiou, e foi agredida por diversas vezes sem perceber. Samantha assistiu a tudo aquilo.
  Antes que ela levantasse, seus cabelos foram puxados, ela foi jogada no chão, teve suas costas perfuradas por diversas vezes. Bryan não tinha forças para levantar, tudo estava ficando sem sentido para ele. Até que teve seu golpe de misericórdia.
   A porta de entrada da casa estava aberta, a coisa desceu e a fechou, levou os corpos e os amarrou no andar de baixo.
   Agora era a hora de subir para o quarto de Joe, era a vez dele.
   Ao abrir a porta, ele estava sentado na cama, e voou para cima dele, e eles começaram uma briga. Joe estava diferente.


4


   Joe foi para cima de Snow com um crucifixo em cada punho, conseguiu dar um soco naquela coisa em que Snow se transformara.
   Os dois começaram uma briga realmente feroz, Joe pedia a cada soco dado e recebido a força e proteção de Deus, Snow apenas sorria, apesar de estar bastante machucado.
   De repente Joe sentiu uma força repentina em seu corpo e desferiu vários golpes em Snow, ele foi perdendo sua forma de demônio e batia no cachorro ferozmente.
   Acabara ali. Tudo tinha acabado, ele poderia viver em paz. Era hora de ser feliz com sua família.
   Ele desceu as escadas e foi para a cozinha, e viu no rosto de Carol o medo, ele não gostava daquela expressão, foi aquela expressão que o fez matar Claudia, foi aquela expressão que o fez matar os pais, e seria aquela expressão que o faria matar a irmã.
   Depois de matar a irmã, ele subiu para seu quarto, e dormiu. Ficou poucos dias indo até a cozinha e comer diante os corpos deles, o corpo de Snow estava em seu quarto.
  Passou como um filme em sua cabeça o que realmente acontecera com sua tia. Ele iria comprar algumas coisas para eles, ele sentiu vontade de voltar e brincar um pouco, queria assustar a tia, mas o medo em seus olhos o fez sentir ódio dela, e esse foi o erro de Claudia. Não teve estupro, tudo não passara de frases distorcidas de sua mente psicótica.
  Quando estava no quarto dos pais, o pai o viu no pé da cama com uma faca enorme, e o pavor no rosto de cada um o fez sentir ódio.
  Nunca ouve traição dos pais, Carol nunca foi mal falada, ela nunca teve nada com sua professora, tudo ele criara para alimentar em sua cabeça, eram apenas motivos para ele poder matar.
   Joe havia matado seu melhor amigo quando eles foram até aquele estacionamento.
   Joe tinha terminado de escrever sua carta quando os policiais arrombaram a porta de sua casa dando voz de prisão. Joe olhou para eles com um sorriso débil. Logo em seguida o sorriso histérico e lunático estava mais alto do que os passos dos policiais em sua direção.
   Joe pegou uma faca, desferiu três golpes seguidos em seu coração, e por último um golpe em seu pescoço, fazendo com que sangrasse até a morte. Joe não foi preso. Mas isso não impediu que ele fosse acusado e declarado culpado.
  Joe virou notícia, foi declarado culpado pelas mortes de Leila Clanster, professora; Michael Scanley, amigo de Joe; Elizabeth e Claudia Malklin, tias; Bryan, Samantha e Carol Malklin, pai, mãe e irmã respectivamente.
   Jonesy Malklin nunca fora esquecido, e ainda é possível ouvir falar dele em conversas de bares, em rodas de jovens, embora alguns não gostem de tocar em seu nome. Muitos acreditam até que seja um mal agouro falar seu nome. Alguns disseram que já viram sua imagem no espelho, ou já o viram no pé da cama acompanhado de um demônio, dizem que esse demônio que o acompanha é o mesmo que possuiu seu corpo, embora muitos achem que não existiu nenhum demônio. Muitos consideram que ele era apenas mais um desses assassinos. Mais um desses loucos que vem à terra apenas para causar o mal.
   Hoje em dia é fácil encontrar a carta que ele escreveu momentos antes da polícia chegar, dizem que quem ler essa carta morrerá em poucos dias, ou de loucura ou de formas inexplicáveis. Creio que você irá querer descobrir a forma em que irá acabar.


5


   "Os pecados do mundo eu vim tirar. Aos pecadores eu digo que a paz não existe, mas o tormento sim. Eu, que sinto alívio na dor daqueles que me cercam.
   A loucura talvez faça parte de mim, vejo demônios me cercando, vivo com um dentro de minha casa. Aprisiono outro no espelho.
   Me dói o corpo ao olhar para a loucura da humanidade, e de loucura eu entendo. Veja só, matei todos que eram importantes para mim, mas eram pecadores, eu sei disso porque as vozes dizem.
   Eu fiz o que fiz por amor. A dor deles alimenta minha insanidade. Eu sou um sádico que daqui encontrará a paz do outro lado da vida. Tenho visões turvas do que me tornarei do outro lado. Deus há de ter misericórdia de mim.
   Eu vivo em uma cadeia livre, onde eu posso transformar tudo isso em abatedouro. A morte tem a essência do prazer em mim. Eu liberto os demônios do inferno enquanto assisto a tudo isso.
   Agora eu acho que vou me retirar por um tempo da terra, vou trazer alivio para minha alma, ver quem me deixou. Mas não pense que não voltarei. Eu estarei vivo nas mentes das pessoas, e estarei por perto, vigiando cada pecador do espelho, do escuro. Estarei observando o mundo todo.
   E você, quando eu aparecer na sua frente, no espelho, na sua cama durante a madrugada, saberia me responder a uma simples pergunta?

QUE HORAS SÃO?"

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Além da Noite - Todos os direitos Reservados.
Autoria - Anderson Rodrigues
Edição e Revisão - Iago Victor e Anderson Rodrigues.

Sobre Fixação Literária

Fixação LiteráriaSomos jovens escritores que almejam um lugar nesse vasto campo que é o universo literário e termos a chance de acrescentar na amargura do mundo uma gota de criatividade, duas colheres de elegância e uma pitada de imaginação. Créditos imagem - Mell Galli
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2 comentários:

  1. Como assim? Kkkkk

    Esse escritor de vocês é louco. Amei ele!!!'
    Não esperava esse final, pensei quero Snow iria acabar vivo e ir pra outra família. Mas não, surpreendeu a quem leu desde o início, mostrando que nem tudo é o que parece. Parabéns!

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  2. Eita viado o cachorro do capeta nem era do capeta kkk like

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