A fuga planejada

A Fuga Planejada


Original de: Conrado Franconnali

     Eu nunca fui uma criança esperta, tampouco sapeca ou extrovertida. Eu era a garota sensível que tinha que tolerar insultos em todo encontro de família. Minha avó sempre dizia que eu era fraca demais e que por isso eu chorava quando eu deveria calar, engolir as lágrimas e não sofrer tanto quando meus primos me batiam. “As pessoas sofrem porque lhes falta força” – ela sempre dizia quando eu reclamava dos primos maiores chateando de mim.
            Certa vez, quando eu tinha cerca de nove anos, nós – eu, mamãe, papai e meu irmão – fomos para um jantar na casa da tia Luna. Lá nós jantamos e dormimos, e quando acordei – eu estava dormindo no quarto do meu primo de quinze anos com meu irmão, que inclusiva não estava mais lá – eu senti Júnior (o meu primo) tocando as minhas partes íntimas. Quando percebi de fato sai gritando do quarto. Ele saiu atrás dizendo que era mentira e de repente uma confusão tomou conta de toda a casa. No final ninguém acreditou em mim e eu levei uma surra do meu pai tão grande que não fui para a escola por duas semanas.
No colégio eu nunca fui uma boa aluna. Eu sempre me esforcei para ser, contudo eu não conseguia. Meu irmão mais velho, para aumentar meu sofrimento, sempre me lembrava que suas medalhas de olimpíadas de matemática eram lindas, o que fazia meu pai dizer a frase que eu mais odiei em toda a minha infância: “Você deveria ser como seu irmão garota sem talento” e quando estava com raiva do trabalho ele acrescentava: “o que você acha das pessoas que perdem na vida?”, em seguida eu ouvia o pior: “Eu só espero que você não seja uma dessa pessoas, do contrário sentirei mais vergonha de você do que já sinto”.
            Nos encontros de família eu era a excluída. Todos da minha idade eram adorados, exceto eu por ser a garota retardada sem bons resultados na escola ou talentos naturais. Eu sabia que nenhum deles me amava, apenas me tolerava por ser membro da família, entretanto sempre manti a pose de que não importava com o que eles pensavam de mim. Por minha má fama eu sempre fui humilhada por algumas primas – elas me intimidavam sempre que podiam, até o dia que eu fiz uma grande confusão e bati em uma delas. Após aquele dia toda a família passou a ser mais indiferente a mim e quando percebi eu já acreditava nunca ter possuído uma família de verdade.
            Na adolescência os problemas se intensificaram mais. A dificuldade que tinha de se comunicar e se socializar com as pessoas se tornou um muro entre mim e o resto dos adolescentes. Eu não tinha amigas, eu não tinha paqueras ou interesses em ir a uma festa. O único momento da minha vida que tentei ser uma adolescente comum foi quando aceitei o pedido de namoro de um menino da mesma sala que eu que se chamava Caio. No entanto, quando fui apresentá-lo aos meus pais houve uma grande discussão entre eu e eles e por fim acabei apanhando no rosto na frente dele e o assustando. Nós havíamos terminado naquela noite e minutos depois eu jurei para mim mesma que não me permitiria mais gostar de mais ninguém.
            Quando cursei inteiramente o ensino médio eu tentei ingressar em uma faculdade pública, mas não consegui. Tentei passar em alguns vestibulares de universidade privadas, porém meu pai foi bem claro a dizer que não pagaria um centavo para ver uma filha como eu estudar. Sem alternativas eu procurei trabalho sem sucesso. Em resposta a tudo hoje eu estou e frente ao espelho para realizar sem falhas – o que não é fácil para alguém tão incompetente quanto eu – minha fuga há meses planejada.
            Durante toda minha vida eu apenas fui rotulada como tormento, imbecil e inútil e talvez eu realmente seja o citado. No caso de não ser, devo admitir que algumas mentiras são repetidas tantas vezes que se transformam em verdades. Eu nunca consegui ser a pessoa que eu queria ser – na realidade, eu nem queria existir –, quem as pessoas que me cercam queriam que eu fosse ou o que de fato eu deveria ser. Diante de tudo eu refleti e cheguei a conclusões obvias.

            Eu nunca tive cura, eu sabia disso. Uma garota tão renegada pelos próprios pais e família não tinha solução ou chance de mudança. Decidi então que naquele banho eu me mataria. Assim, como um velho revólver antigo que o meu escondia no armazém do quintal eu atirei na própria boca e experimentei o gosto da fuga que eu mesmo planejei. Ali, naquele chão de banheiro ensanguentado, eu aprendi que a morte é bem menos dolorosa e aterrorizante do que as pessoas fazem parecer.



Sobre Fixação Literária

Fixação LiteráriaSomos jovens escritores que almejam um lugar nesse vasto campo que é o universo literário e termos a chance de acrescentar na amargura do mundo uma gota de criatividade, duas colheres de elegância e uma pitada de imaginação. Créditos imagem - Mell Galli
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