Aquelas Rosas Azuis

Aquelas rosas azuis
Original de: Iago Vitor

Era um dia relativamente calmo, meu expediente havia se encerrado no dia anterior, portanto eu havia ganho um dia de folga naquele mês turbulento (cá entre nós, eu precisava de um descanso). Minha Catherine - eu a chamava assim - também teria um dia de folga de sua faculdade, ou seja, teríamos um dia só para nós dois.

Semanas antes, Catherine havia me dito que gostaria de algo espontâneo em nosso aniversário de namoro - era o nosso primeiro ano juntos - e eu, como um romântico exacerbado que era, tinha mil ideias diferentes e originais. Vamos lá, todos sabemos que nós românticos somos menosprezados, mas somos os que mais tratam os parceiros com carinho. 

Uma semana antes, Catherine havia dito de forma singela e calma - o que contrariava seu jeito rotineiramente explosivo - que gostaria de ver um buquê de rosas azuis, pois seria algo incomum e espontâneo (Céus, agora vejo que ela havia dito exatamente o que gostaria de ganhar). Eu não entendia muito de flores, mas nunca havia visto algo sobre  rosas azuis que não fosse uma edição digital, então imaginei algo que agora soa infantil: vou criar rosas azuis para Catherine.

1° tentativa:

Com sete dias de sobra eu imaginei que teria tempo hábil para criar uma rosa azul. Lembrei dos conhecimentos básicos da formação da coloração das plantas (para quem não conhece, é algo chato, muito chato) e descobri uma forma de criar o sonho de Catherine: criar uma solução a base de água e tintura sintética azul, colocar o caule de uma rosa branca ainda no botão e o caule iria absorver a tinta e sistematicamente iria se tornar azul. Na teoria parecia ser simples, me senti um fodendo cientista ao preparar a solução e imergir a rosa branca. Mantive tudo escondido ao longo da semana... Parecia dar tudo certo...

No sexto dia (um dia antes) descobri duas coisas muito importantes: as rosas jamais ficariam azuis; eu havia gasto uma fortuna em tintas sintéticas inutilmente.

2° tentativa:

Fui a uma floricultura (sei, agora parece tão óbvio) para encontrar essas rosas, vasculhei cada floricultura de cada maldito canto dessa porcaria de cidade e mesmo assim não encontrei as fadadas rosas azuis. Gastei quase o mesmo valor em bilhetes de metrô e corridas de táxi que havia gasto no início da semana  com aquelas tintas idiotas compradas por um aspirante a cientista idiota. No fim, gastei muito e ainda não havia conseguido a porra da rosa azul que eu tanto queria. 

3° tentativa: 

Faltavam apenas algumas horas para o encontro entre  Catherine e eu. Opções e dinheiro acabando. Com as poucas notas que me sobraram no bolso (eu não estava falido, eu apenas não queria andar até o caixa eletrônico para sacar dinheiro) eu comprei três rosas vermelhas... O fracasso já pairava sobre minha cabeça, faltava pouco menos de trinta minutos para nos encontrarmos e aquele havia sido meu único presente artesanal - Catherine sempre preferiu os presentes feitos do que os comprados - e eu certamente a decepcionaria... 

Mas um aspirante a cientista idiota pode fazer mais que isso! 

Apanhei um pouco de tinta azul no vasilhame que havia  comprado, peguei um pincel número 2 (não se engane, entendo tanto de pinceis quanto entendo de ciência) e pintei as três rosas vermelhas  com uma mistura de aquarela e tinta acrílica azul. Ninguém vai fracassar hoje!

No fim, ao me ver com seu presente nas mãos e a roupa toda suja de tinta, ela sorriu como apenas ela sorria no mundo, me abraçou e me beijou carinhosamente. A aparência das rosas era descritível apenas  como deplorável, mas ela não se importou, sabia que meu esforço havia sido maior que minha força de vontade geral.

Ainda rindo ela me perguntou:

- Você deve ter gasto uma fortuna com isso... - ela sabia que eu havia pintado as rosas, a tinta escorrendo me entregava.

E ali eu me lembrei do porquê de amar aquela mulher. Mesmo quando eu fracassava, ao lado dela, o fracasso era um acerto. Sorrindo e beijando-a apaixonadamente eu respondi:

- Você não faz ideia do quanto...

Afinal, por Catherine, todo o esforço para obter aquelas rosas azuis valeu a pena... 

Para minha doce Catherine, minhas Rosas Azuis.

Sobre Fixação Literária

Fixação LiteráriaSomos jovens escritores que almejam um lugar nesse vasto campo que é o universo literário e termos a chance de acrescentar na amargura do mundo uma gota de criatividade, duas colheres de elegância e uma pitada de imaginação. Créditos imagem - Mell Galli
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