Diário de Bordo

Diário de Bordo
Paixão entre Escritores

Original de: Iago Victor

    Eu ainda não sei dizer o que foi aquilo, aqui, sentado nessa poltrona, me pergunto se sonhei tudo o que vivi ou se vivi tudo o que sonhei.
    Teria sido um devaneio? Ou só não consigo acreditar no que eu estava vivendo ali? Seja como for, me vejo reclinado na poltrona relembrando (nas memórias ou nos delírios) tudo o que passei ao lado daquela mulher...
    Havia chego a pouco em Bragança, cidade em que ela morava, e em um carro popular nós percorríamos as estradas de forma tranquila, as janelas abertas faziam pouco ruído e eu ainda conseguia escutar seu riso gracioso quando eu lhe contava uma piada ou outra. Minhas piadas nem eram tão boas, mas seu riso, esse certamente era.

  As flores e arbustos que circundavam os túneis pelos quais passávamos eram sempre encantadoras, lembro-me de que ao passar por um túnel de maior comprimento ela se aproximou do meu ouvido e sussurrou algo, não me lembro certamente do que era por conta do ruído do vento, mas a sensação de suas palavras flutuando ao redor do meu pescoço, esgueirando-se pela minha orelha e invadindo a minha mente, aquela sensação era certamente inesquecível.

    Pulamos de nosso carro quando chegamos a um museu antigo, não sei ao certo onde era, nem como era suas redondezas, mas lembro-me dos detalhes de quando entramos: o Lustre de Cristal era imenso, tão grande que eu sequer conseguia enxergar seu final de onde estávamos; as paredes cor de creme e iluminadas com dezenas de luminárias antigas davam um toque de sofisticação que pouco vi em meu país até hoje; o tapete vermelho que conduzia os visitantes dava a sensação de sermos estrelas de nosso próprio filme. Mas ali eu era apenas um coadjuvante da beleza irrefutável dela.
    Seu sotaque lusitano (sim, sendo eu um egocentrista, mesmo descendente de sua língua, digo-a que tem sotaque, e ela não se irrita, ao contrário, acha engraçado, o que me encanta) era algo divino, ao me conduzir pelas paredes de enormes quadros clássicos e vitrais suas palavras doces inundavam-me de esperança e de conhecimento.
    Foi de frente para um quadro de Dom Augusto IV que eu decidi ousar e roubar-lhe um beijo. Ela estava de pé admirando a obra enquanto eu, parado a seu lado, segurava-lhe suas mãos entrelaçadas às minhas, olhei de canto dos olhos para seu sorriso e lhe roubei um beijo, carinhosamente e sorrateiramente, mas não um beijo nos lábios, não me colocaria a esse papel de vilão, mas sim um beijo em sua bochecha, branca e rosada pelo frio, pouco acima de seu cachecol vermelho que combinava com seu casaco marrom de inverno, ao lado de seus cabelos loiros reluzentes na luz dos lustres antiquados. Um beijo rápido, rasteiro e surpreendentemente quente em meio aquela primavera de clima amena.
    Ela não expressou reação de raiva, ou fúria, ela simplesmente me olhou nos olhos e sorriu, me abraçou e nesse abraço eu lhe roubei outro beijo em sua face, mais longo e não menos harmonioso. Aspirei o doce aroma em seu pescoço, não sei definir qual fragrância (nunca fora conhecedor dos mais nobres perfumes), mas sei que sua essência invadiu minha mente. Ela beijou-me no pescoço e nos olhamos ternamente, seu hálito próximo do meu, nossos narizes se encostando, nossos olhos se encantando...
    Bip Bip Bip... 
   Era meu celular me lembrando que estava atrasado para meu voo, sem ele eu jamais voltaria para casa a tempo de retornar a realidade, e por um momento me tentei a ficar ali, preso para sempre com ela, num beijo que nunca acontecera naquele museu. Tentei-me a esquecer a vida de empresário, de egocentrista, de canalha desprezível que encanta as pessoas para obter seu labor, de um depressivo solitário que não vive, mas existe.
   Ela sorri e me diz para voltar, disse que outrora eu voltaria para seus braços, talvez fora dali, talvez noutra primavera em carmesim.
   Embarquei para minha terra, sob a luz do oriente e ocidente, dos meridianos da angústia, retornando ao meu estado natural, da inerte existência...

   Mas para ter teu cheiro em minhas roupas e teu gosto em meus lábios, foste mais que um sonho, foste mais que instantes, foste mais que a própria realidade.



Sobre Fixação Literária

Fixação LiteráriaSomos jovens escritores que almejam um lugar nesse vasto campo que é o universo literário e termos a chance de acrescentar na amargura do mundo uma gota de criatividade, duas colheres de elegância e uma pitada de imaginação. Créditos imagem - Mell Galli
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