Sobre o divã - PARTE 2










1


“Toco o seio nu, desperto em desejos, sinto a respiração e imagino o que não devo. No escuro encontro o desejo dado pelos deuses, domino o corpo e a mente e faço das sensações torturas, onde o alivio vem em jorros, onde o gozo vem em sussurros, onde o grito vem em gemidos.
O beijo quente entre dois corpos nulos, suores e vendo até onde combinam, a noite faz festa nas ruas, o quarto iluminado de prazer dando sombra à Lua. Talvez dizer o que gosto fosse manter mais longe, mas quis arriscar-se por mim, dar teu juízo e alivio por prazer, me transformar naquilo que ninguém mais conseguiria. Te colocar juízo, te botar no rumo que eu acho certo e você desconfia, mas ainda sim confia em mim.
Dai-me teu corpo porque sou teu senhor, te darei o que merece, e mesmo assim você não pede mais do que o necessário, mesmo que eu venha com julgamentos errados e você saiba a verdade e o que merecia, mas ainda assim confia em mim. És apenas uma escrava, dona da vaidade, mistura do prazer, vigiada por ausência de vontade. Sabe que em qualquer esquina um marido pode ter, mas nenhum deles darão aquilo que eu poderei dar e te fazer ter. Você cansou deles e quer a verdade de espírito, a liberdade do mundo, a minha força bruta em cima do teu corpo descoberto. Das tuas lágrimas me alimento, mas ainda sim confia em mim.
Dai-me um beijo apaixonado, executa tuas tarefas honrosas, mostra-me a mulher que és, e me veja ser o homem que nunca teve. Deixa eu te mostrar o que pode ser real, o que pode ser fantástico. Deixa eu te mostrar a verdade. Quero dominar teu corpo, beijar tua boca, fazer teu corpo tremer, te fazer ser o que você sempre quis ser. Quero te fazer ceder. Te deixar sedenta pelo meu corpo, te fazer pensar em mim durante a semana que passo longe. Quero te fazer pensar. Quero compensar-lhe. Jamais te fazer mal. Mesmo eu querendo fazer com você o que jamais farão.
Você confia em mim? ”
Dizia Matthew para aquela mulher que tanto sonhou, e ela apenas mantinha a respiração forte, lenta e pesada. Seus olhos estavam vendados, seu corpo amarrado e completamente nua. Ela aguardava o próximo passo.
Ele a observava, aguardava a resposta, e ela sabia o que ele queria, e era muito tarde para voltar no que ela tanto quis.
- Matth, tenho uma condição!
- Sem condições! - Ela sorriu ao escutar isso.
- Era isso o que eu esperava ouvir. – Ela mordeu os lábios, tentava imaginar como estaria Matthew a sua frente. – Eu confio em você, meu senhor!
Era tudo o que ele precisava ouvir.

2


This is as far as i could reach” *. Essa era a frase que ficou na cabeça de Matthew durante aqueles dias, depois do sonho, era apenas isso, era o mais próximo que ele poderia chegar perto dela. O sonho foi o que ele conseguiu, e teria que se contentar com isso. Ele se imaginava como as coisas ficariam caso aquilo não tivesse sido apenas um sonho, ficava se perguntando como seria a relação entre ele e Kirsten, se ainda seriam “terapeuta e paciente”, ou se envolveriam cada vez mais. O que dificultava a relação deles além dela saber o que se passava na mente dele? O simples fato de ela carregar uma enorme roda dourada de caminhão no dedo da mão esquerda. Ele sorria com essa definição e achava patética, mas era o melhor que ele poderia fazer, e eles não poderiam acabar juntos. Era assim que deveria ser sua próxima história, e dessa vez, sem pretensões de se tornar um sucesso, ele apenas precisava se colocar na história, e colocar Kirsten.
As semanas foram se passando, Matthew escrevia compulsivamente, a história havia entrado em um ritmo que há muito suas outras histórias não entravam, se é que alguma havia entrado. Seu empresário estava gostando do ritmo, a editora gostou de saber que não haviam errado em dar mais uma chance a ele. Matthew apenas se concentrava em tirar o melhor de suas idas ao consultório de Kirsten, e fazer a história de Carmen e Arthur. Eles se amavam, queriam ficar juntos, poderiam ficar juntos, mas não poderiam. Era apenas o que ele dizia para Edgar, seu empresário extremamente gordo viciado em trabalho e louco por dinheiro, que havia sido abandonado pela esposa e seus dois filhos.
Edgar tentava sempre tirar algo a mais da história, e cada vez que Matthew contava algo, mais a curiosidade dele aumentava, e dos editores também. Estavam todos excitados que o novo livro de Matthew, e Matthew estava cada vez mais envolvido na sua história não correspondia com Kirsten, e que ela não sabia disso.
Ao ser lançado e ser bem aclamado pela crítica, as vendas a cada semana iam aumentando, e a distância entre ele e sua terapeuta ia aumentando, e era a consequência do que ele sempre buscou, o sucesso fazia isso, nos dava e nos tirava, e muitas vezes nos tira mais do que queremos, e muitas vezes devemos apenas aceitar.
Ele conseguiu algumas semanas de folga, e conseguiu um horário com Kirsten, sua agenda estava cheia, um pouco dessa procura era pelo fato dele ter falado muito de seu trabalho, que ele só havia conseguido lançar aquele livro por conta da ajuda de Kirsten Stancy.


3

- Espero que esteja conseguindo ganhar dinheiro! – Disse Matthew entrando no consultório.
- Não tanto quanto você! – Disse Kirsten sem olha-lo entrar e sentar. – A vontade.
- Como você está?
- Vamos começar a inverter os papeis?
- Só estou querendo fortalecer os laços, você sempre me fala isso! – Ele espera por uma reação.
Kirsten olha para ele e sorri, está visivelmente cansada, e ele sabe o porquê, porque naquele mesmo dia ele também estava, não tinha o que falar, sua mente estava cansada, havia viajado quatro horas para estar ali, e tinha se esquecido o quão ela era linda, o sorriso simples que ela tinha, a leveza que ela parecia ter em seus movimentos.
Ele estava olhando para o divã, e de repente eles estavam deitados aos beijos, sua mão estava na cintura de Kirsten, o beijo era intenso, tinha desejo.
- Matthew, responda! – Kirsten estava sentada no mesmo lugar.
- Desculpe, estou muito cansado, estava lembrando de algumas coisas que não seriam relevantes no momento.
- Tudo bem. Como estão indo as coisas? Tem lidado bem com todo esse sucesso?
- Ainda não, era o que eu buscava, mas tem me privado de muitas coisas.
- Do que por exemplo?
De você!
- Não sei, é difícil dizer. Dos amigos, do tempo livre. De tudo um pouco!
- Entendo. Mas os laços se mantém? Mesmo você estando há tanto tempo longe?
É o que estou querendo saber. Você tem pensado em mim?
- Sim, acho que até melhorou com algumas pessoas. Mas todo esse sucesso, o que venho conquistando é perigoso.
- Por que perigoso? Acho que não entendi.
This is as far as i could reach. ”
- Como eu disse, é complicado falar. Sabe, aproveitadores. Eu confio demais, e confiar demais já me custou muita coisa. – Ele olhou fundo em seus olhos, inconscientemente ele queria que ela entendesse do que ele falava.
A conversa se seguiu pelos cinquenta minutos, o tempo era injusto para o tanto que ele tinha para falar, ou para simplesmente ouvir sua voz e responder as suas perguntas.


4

Matthew estava indo ao endereço de mais uma festa em comemoração de seu sucesso, e seu empresário não estava se mostrando apenas um gordo viciado em trabalho, mas também em festas, jogos, mulheres e um pouco da droga de grandes empresários de Wall Street, sabe, aquele branquinho que enriqueceu Escobar.
Ao chegar no local, todos bem vestidos, sorrisos que ele considerava falsos, porém encantadores, cada um querendo satisfazer seu ego, homens com mulheres mais jovens e lindas, e mulheres lindas e jovens com homens mais velhos, feios, porém ricos. Provavelmente seria uma troca justa, e era.
Matthew estava sentado no bar, com um prêmio que havia ganhado naquela noite, havia recebido parabéns e forçado sorrisos, e observar toda aquela gente fez com que ele aprendesse a forçar, saberia fazer aquilo dali para frente.
Ele bebia, e de repente viu aquela mulher entrando, com um vestido tão longo quanto sua fenda que abria a cada passo e que mostrava suas pernas, o grande decote que mostrava o belo par de seios, mas o principal, era o sorriso e o olhar, era isso o que ele sempre reparava primeiro, e era a partir disso que ele tirava a conclusão do que valia ou não a pena tentar.
Mesmo sem pensar, era nela que ele pensava, não reparou o quão linda era aquela mulher, mas seu sorriso lembrou o de Kirsten, o seu jeito de andar era o mesmo, mas no fundo, Kirsten era mais linda.
- Prazer, Rachel.
Matthew olhava para aquele infinito azul em seus olhos, ela era linda, com certeza era, mas não era em sua aparência que ele estava interessado, mas sim, em algo nela que o fazia lembrar daquela mulher que provavelmente estava em casa, vivendo sua vida, e não lembrando dele, ele apostava nisso. Ele tinha todos os contatos dela, mas não sabia como conversar com ela, como ter aquela conversa de dia a dia, fazendo com que a história de “terapeuta/paciente” fizesse jus ao que ele considerava as conversas com ela.
- Prazer, Matthew Hangel.
Rachel era uma mulher alta, ruiva e pelo o que ele havia percebido, ela apostava em seus seios e em suas pernas para seduzir um homem, mas Matthew sabia que ele não era qualquer um e isso não interessava a ele. “Mais vale um belo par de olhos...” lembrava ele constantemente enquanto pensava em que ela apostara que podia ter qualquer homem naquela festa, e provavelmente seria ele.
A noite ia passando, os dois iam conversando, Matthew intercalava entre molhar a boca com whisky, entre forçar sorrisos que ele havia aprendido naquela noite, entre forçar atenção a bela moça, entre dar autógrafos, e tentar não pensar no que Kirsten estava fazendo.
Rachel era comissária de bordo, e era sim, bastante interessante, mas não despertava nele, ele percebia os olhares que iam na direção deles, mas mesmo assim, ele não sentia.
O salão estava cada vez mais vazio, Matthew convidou Rachel para passarem a noite juntos, ela aceitou. Ele não fez questão de dizer a ela o que ele gostava, como terminaria a noite. Ele apenas decidiu fazer.


5

Tinha mais de trinta minutos que Rachel estava amarrada, de joelhos, de costas para Matthew. Ele estava sentado na cama, olhando para o corpo dela, no fundo queria aproveitar com ela, mas tinha um certo alguém que ele tinha em mente. Ele olhava para Rachel enquanto segurava em sua mão um copo com whisky, não tirava os olhos dela, pensava o que estaria fazendo caso fosse a tal mulher que despertara o interesse nele.
Ele pensava se ela estaria pensando nele, se ela compartilhava do mesmo interesse por ele, se ela algum dia tinha imaginado algo que envolvesse ele. Talvez a forma que ela falava com ele algumas vezes, fosse apenas uma defesa, para que não lhe mostrasse interesse. Talvez fosse realmente isso.
Ele levantou da cama, foi em direção de Rachel, ela virou a cabeça para a direção em que se ouvia seus passos, ele segurou seu cabelo, puxou para trás e beijou sua boca, segurou seu seio firme.
Se não posso tê-la de verdade, então vou aproveitar a imaginação que e foi dada. Essa noite você será minha

6

Algumas semanas se passaram desde que ele esteve com Rachel, ele estava agora de frente para Kirsten. Ela estava com a aparência menos cansada, estava mais sorridente, e ele estava gostando disso.
- Matthew, antes de começarmos essa sessão, queria te perguntar uma coisa.
- Tudo bem, pode perguntar o que quiser, te dei liberdade para isso, certo?
O silêncio se manteve, o único som que tinha no consultório era o tilintar do relógio, o frio na barriga em Matthew estava aumentando. Era mais que insuportável.
- Você está interessado em mim?
Matthew não estava esperando aquela pergunta, o frio na barriga agora era algo que ele imaginou ser vários socos. Tentava mexer a perna, mas ela não respondia.
- Não digo interesse, apenas não vejo isso aqui como uma terapia, já te disse isso. Acho que se eu visse isso aqui como uma terapia, isso aqui não funcionaria. – Era o que queria ter dito.
Matthew ficou apenas fitando os olhos de Kirsten, seu corpo tremia, balbuciou algumas palavras, mas não conseguiu terminar.
- Eu fiquei pensando isso por um tempo, Matt. Se estiver, não tem problema, isso não quer dizer que precisaremos parar com a terapia.
- Sim eu sei, mas não ache que estou interessado em você. – Forçou um sorriso. – Eu te vejo como uma amiga, uma pessoa que posso contar tudo. Apenas isso.
- Entendo. – Ela anotou algo no caderno dela, que ele tanto queria saber o que ela escrevia sobre ele.
Ele observava ela anotar algo. A consulta levou seus cinquenta minutos, Matthew respondia às perguntas, mas sem conseguir deixar de pensar na pergunta dela, em qual momento ele demonstrou isso.
- Então nos vemos depois, Kirsten.
Ela não olhou para ele, mantinha os olhos no caderno, e tinha um sorriso. Ela olhou para ele, rasgou um pedaço da folha do caderno.
- Esse é meu número pessoal, Matt. Mande mensagem, ou ligue quando precisar.
Ele pegou o papel e não olhou até estar dentro do carro, e lá estava o número dela, com o nome dela, e tinha um coração desenhado, fez ele ficar mais calmo.
Como vou puxar assunto? Sobre o que irei falar? ” Ele riu, o nervosismo as vezes nos faziam ter uma atitude estranha, “rir logo agora? “, pensava ele.
Na parte de trás do papel em que estava o número tinha algo escrito:
“Aceita sair comigo quando estiver de volta? Sim, quero um encontro! “
Matthew deixou de rir, ligou o rádio do carro e foi em direção ao aeroporto, estaria de volta em dois meses, até lá, pensaria bastante em Kirsten, e esperava que ela pensasse bastante nele, para quando ele voltasse tudo entre eles acontecesse.
E no rádio tocava aquela música:
If you go
If you go your way and i go mine
Are we so?
Are we so helpless against the tide?
Baby, every dog on the street
Knows that we’re in love with defeat
Are we ready to be swept off our feet?
And stop chasing
Every breaking wave.*


*Trechos da música ‘Every Breaking Wave’, da banda irlandesa U2



- Anderson R.

Sobre Fixação Literária

Fixação LiteráriaSomos jovens escritores que almejam um lugar nesse vasto campo que é o universo literário e termos a chance de acrescentar na amargura do mundo uma gota de criatividade, duas colheres de elegância e uma pitada de imaginação. Créditos imagem - Mell Galli
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1 comentários:

  1. Nooooooooossa... agora a coisa vai. Ele vai conseguir ficar com ela? MEU DEUS, que eles fiquem, pelo menos uma vez!!!

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