Entrevista com Marina Cassini - Cantora e Escritora

           
 Bom dia Marina. Eu sou Iago Victor, um dos administradores da Fixação Literária, e hoje eu gostaria mais uma vez de agradecer a sua participação. É um grande prazer tê-la conosco nesse momento.



Marina Cassini, cantora e escritora. Foto de seu acervo pessoal.
            O que nossos leitores gostariam de saber inicialmente é: Quem é você Marina? Se resuma em poucas palavras, como é definida a pessoa “Marina Cassini”?

Primeiramente. Eu gostaria de agradecer novamente pela oportunidade de fazer algo que assumo, gosto muito: Falar! Kk
Bom, eu. É sempre tão difícil falar de nós mesmos, mas acredito que eu sou uma pessoa inconstante e essa é a palavra que melhor me “ilustra”. Eu poderia me definir muito bem no momento, a “eu” de agora. Descrever a minha personalidade, o meu humor habitual e os meus gostos, mas daqui a 1h pode ser que eu seja alguém diferente, porque acredito que as experiências “me fazem”, e considero que vivo experiências o tempo todo. Então Marina Cassini é mutável.

            Agora eu gostaria de falar um pouco sobre você... Eu não nego que eu conheço você, é claro, nós estudamos na mesma escola e, bom, por via de regra conheço você desde 2012, salvo meu engano você deve ter entre 19 e 21 anos. Eu já assisti apresentações suas da escola, inclusive tive oportunidade de participar dos preparativos de uma apresentação e você realmente mandou muito bem.
            Você manda muito bem como cantora! Eu já conheço seu trabalho como cantora, você realmente canta muito bem, é realmente muito lindo te ver cantar. Eu vi também o seu talento pra escrever. Eu acompanho o que você escreve basicamente todos os dias em que você posta no Facebook, sempre curtindo e conhecendo esse trabalho. Sempre que você posta algo do Tumblr eu estou curtindo também, até porque é uma plataforma muito boa e você é uma excelente escritora, reconheço que você tem um talento muito grande para isso e por isso eu gostaria de falar de você para meus leitores.
             Como cantora, como você começou nisso? Com que idade você começou a cantar?

Obrigada pelos elogios e fico muito contente que você se lembre das minhas performances e acompanhe meu trabalho atualmente. Sinto-me lisonjeada.
Venho de uma família paterna, de músicos. Mesmo os membros da minha família que não se expõem comumente nessa área, possuem alguma facilidade com a musicalidade, instrumentalmente ou pela afinação natural. Considero isso um patrimônio familiar (kk) e sou grata por esse dom.
Logo, desde muito nova eu sentia como um instinto, cantar ou apreciar os instrumentos, mas apenas comecei aos 12. Muito tímida, eu não cantava perto das pessoas, porém fiz uma audição em uma instituição de cultura para crianças e fiquei surpresa com a atenção externa que eu recebi por causa da minha voz. Até então, eu era muito acanhada em casa, mesmo com a minha família de músicos, e a partir daí, eu apenas comecei a estudar e me aprofundar na música, como se fosse a melhor coisa que eu sabia fazer. Com isso, vieram as apresentações. Pequenas, para pequenos públicos e a família, mas muito valiosas para o desenvolvimento da pessoa que eu sou.

            E agora já puxando esse seu lado escritora e cantora o mesmo tempo. Diga-nos, tanto como cantora quanto como escritora, você já compôs alguma música? Se sim, qual o tema dela? Qual o qual é o estilo dessa música?

Já compus muitas músicas, e grande parte delas está voltada para um estilo mais R&B, que é onde eu me encaixo melhor na música, apesar de ouvir de tudo um pouco. Para ter uma boa ideia disso, eu já tive bandas de rock, e cantei em corais de igreja.
Mas voltando às composições: Gosto muito de explorar o que há por trás das relações, isso é uma coisa que me intriga. Por exemplo, gosto de compor sobre como as pessoas se sentem no dia-a-dia com as mais variadas situações pelas quais passam. Parece estranho imaginar isso, não é como se eu pensasse na forma como uma pessoa se sente enquanto compra café (kk), mas quase todos os meus textos e letras de música se aprofundam nas hipóteses por trás das cenas que eu vejo ou imagino. Posso estar lendo um livro e ter uma inspiração para a música a partir de uma cena, ou estar lendo jornal e sentir inspiração para um texto, para formar uma opinião. Então não, nenhum tema especial ou direto, apenas impressões sobre o mundo e tudo o que está diante dos meus olhos. Qualquer lugar e/ou momento recriado com as minhas palavras.

            Eu, como escritor, sei o quanto é difícil conseguir conciliar a vida profissional e a vida de autor e você não só é cantora, mas também é escritora e você também trabalha. Diga-me, como você consegue conciliar isso, como você tira um tempo pra escrever? Você escreve um rabisco à mão e depois passa para o computador? Como que é feito seu processo de criação que realmente dá muito certo pra você?

Você sempre me verá rabiscando alguma frase, postando algum texto, e tenho que reconhecer que preciso arrumar as gavetas, porque sempre estão repletas de papéis, guardanapos, folhas  escritas e cadernos cheios.
Como você bem colocou, é difícil conciliar, ainda mais quando as palavras vem com urgência, o que geralmente acontece comigo. Se eu não tiver um computador à disposição, eu farei meus dedos doerem de digitar pelo celular no bloco de notas assim que as tarefas no trabalho derem brecha, ou em qualquer outro lugar em que eu esteja. E sim, provavelmente, se não houver nenhum objeto que me permita registrar a inspiração súbita (que pode ser um texto, um poema, frase ou uma ideia para música), eu vou repetir um pouco ou centenas de vezes, para captar aquelas palavras e pública-las de alguma forma assim que eu puder.
Da mesma forma é quando eu quero cantar. É como uma necessidade, de certa forma. Mas eu cantarolo por ai, faço gravações só pra mim, e ouço depois ou muito tempo depois, assim como leio os meus próprios textos. E sinceramente, penso que funciono melhor assim: Quando as palavras surgem, quando alguma coisa que eu penso (e eu penso até demais), faz total sentido, ou quando traduz perfeitamente o que eu vejo ou sinto.

            Dentro do que você escreve, quais são os temas que você mais gosta?

Assim como eu disse sobre compôr. Vai além de comentários sobre atualidades do mundo, situações pelas quais o meu país e os meus conterrâneos estão passando, até o que eu faço no meu Tumblr, que é registrar minha visão de tudo, em linguagem poética ou romantizada. Ou seja, de tudo um pouco.
Mas se eu arriscasse colocar uma preferência, eu diria que o que eu mais gosto é falar sobre pessoas. Sobre as emoções das pessoas, sobre as diferenças delas. Talvez porque eu não seja capaz de entendê-las tão bem quanto eu gostaria, ou só porque elas me fazem refletir sobre como eu mesma sou vista, pelos olhos do mundo.

            E você já pensou em escrever pra alguma revista, algum blog, pra algum tipo de mídia que possa falar sobre o seu trabalho? Você nunca pensou em mostrar o que você escreve? Os textos que você escreve são realmente ótimos! Você nunca pensou em mostrar pras pessoas o que você escreve?

Eu já tive blogs, e por muito tempo tentei compartilhar com as pessoas o que eu escrevia. Como a maioria das pessoas para quem eu tentava mostrar as minhas palavras, tinha a mesma faixa de idade que eu, tenho que admitir que o interesse demonstrou-se muito fraco. Acredito que grande parte dos jovens, do tempo em que eu comecei a escrever para o tempo em que estamos hoje, perdeu muito do interesse pela leitura, pela escrita ou simplesmente pelo esforço de tentar se expressar dessa forma sem que a escola os obrigasse a isso. Nesse momento, eu tive que fazer uma escolha: Ou eu simplesmente deixava isso me abalar e parava de escrever, ou eu continuava fazendo isso por mim, porque simplesmente gosto e isso não depende de ninguém além de mim mesma. Parece que temos um vencedor!
Eu assumi o compromisso comigo mesma, de escrever para quem quiser ler, para quem tiver o interesse de se aprofundar por prazer ou mesmo para criticar. Essa é a atual ideia do meu Tumblr. Ele está lá, nos meus altos e baixos, com seus próprios altos e baixos, e sendo visitado ou não, ele sobrevive!
Mas então eu percebi que o Facebook tem feito o papel de um hall de informações e ao mesmo tempo de entretenimento e isso definitivamente combina comigo e com a minha forma de me expressar. Além disso, diferente da experiência com os Blogs, as pessoas estão continuamente conectadas com essa rede, e o que cai nela se torna popular mesmo que por pouco tempo. Entre as discussões, os manifestos, as piadas e os memes, eu encontrei um lugar para simples e abertamente, falar. Onde você pôde me enxergar e acredito que outras pessoas também, além de concordar ou discordar dos meus argumentos nos mais diversos assuntos. Inclusive, penso em montar uma página ou um grupo por lá, para que as pessoas divulguem livremente seus textos e o que mais elas quiserem compartilhar. Essa é uma ideia que pretendo amadurecer.

            Vejo também que você escreve muito sobre igualdade e igualdade de gêneros e igualdade de direitos e você escreve principalmente sobre críticas para as práticas inaceitáveis que a sociedade insiste em mostrar. Você toca muito nessa ferida na sociedade eu gosto muito disso, fico realmente muito feliz quando leio isso porque você é jovem e você já tem esse pensamento crítico formado, não é algo que está se formando, ele já tá formado e achei isso muito legal. Conta pra gente um pouco do porquê de você falar tanto sobre isso, você realmente gosta de lutar pelos direitos? Como é a sensação de tocar na ferida da sociedade?

Eu realmente gosto de falar sobre isso. E o maior dos motivos é porque eu não vejo isso como um assunto distante, eu vivo isso. Eu vivo isso quando eu ando na rua, eu vivo isso quando me manifesto em algum comentário no Facebook ou outra rede e alguém escolhe o fato de eu ser mulher para desmoralizar a minha opinião (sim, isso acontece muito). Vivo isso quando alguém trata a mim ou a outra pessoa na mesma situação que eu, diferente, porque eu vivo em um bairro pobre, porque minha cor é diferente, porque a opção sexual de fulano não é aquela considerada “natural”, ou quando simplesmente usam o meu gênero para me colocar em algum lugar onde eu não acho que tenho que estar. Porque francamente, meu lugar, seu e o de qualquer outra pessoa, é exatamente aonde queremos estar. Odeio ser limitada e se eu tiver que ser contestada, espero ouvir argumentos concisos das pessoas, e não “mas você é mulher, e mulher faz isso e não pode fazer aquilo...”, isso para mim não conta.
Infelizmente eu não posso mudar o mundo com o que escrevo e muitas vezes nem mesmo o pensamento de uma única pessoa que está determinada a não deixar que pensamento seja mudado. Mas acredito que falar desses assuntos, encoraja que as outras pessoas não se calem e deem a sua versão da história. Então sim, essa é a minha maneira de gritar e de lutar: dissertando sobre. E com isso, espero que as outras pessoas possam fazer das minhas palavras, seu escudo.
É sempre gratificante quando alguém pega emprestado algo que eu disse para se opor a um pensamento machista, femista (porque isso não é  bom e as pessoas tem confundido feminista com femista), um comportamento sexista e homofóbico. É sempre gratificante quando alguém me chama para ter uma conversa a cerca desses assuntos, é sempre gratificante quando eu consigo fazer alguém pensar e refletir sobre a essência do seu próprio idealismo, mesmo que sua opinião seja contrária a minha. Gratidão é a sensação.


            Marina, pra encerrar, aqui entre nós, eu sei que nenhum escritor nunca tem um texto Favorito. Alguns até têm, mas não vou pedir para que você escolha um como sendo seu favorito dentre todas as suas criações. Fala pra mim qual o texto assim que mais te marcou ao você escrever, o que mais te marcou em relação à reação do público, a sua própria reação em relação a esse texto. Qual seria esse texto?

Uma vez escrevi sobre como passamos nossas vidas correndo atrás e sempre correndo atrás de alguma coisa. Sobre como as lutas são necessárias, porém como é fácil que nos percamos nelas. Tudo isso para seguir a ordem que se diz “natural”. Plano que assumem como certo para a vida, mas que não são os nossos planos de verdade. O dinheiro é quase o centro disso e se você já ouviu aquela frase: perdendo a vida, tentando ganhá-la, então é exatamente sobre o que eu falei nesse texto e ele tem uma essência muito forte, baseada na minha vida, nas minhas reflexões e experiências e por isso é um texto que me marcou muito.

Novamente, agradeço muito pela oportunidade e espero ter contribuído de uma forma legal para a Fixação Literária e os seus leitores. Compartilhar essas palavras com vocês foi um privilégio para mim!
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Galera, quem quiser conhecer mais sobre a autora e cantora, basta clicar no link do Tumblr dela aqui em baixo:


Espero que vocês tenham gostado dessa entrevista. Um grande abraço e até a próxima com mais uma promessa da Literatura!



Sobre Fixação Literária

Fixação LiteráriaSomos jovens escritores que almejam um lugar nesse vasto campo que é o universo literário e termos a chance de acrescentar na amargura do mundo uma gota de criatividade, duas colheres de elegância e uma pitada de imaginação. Créditos imagem - Mell Galli
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