Flama

Flama

Conrado Franconalli em 04 de Janeiro de 2017.

            Entrou no apartamento ofegante, com o rosto sangrando, olhos vermelhos de tanto chorar e dois galões de gasolina nas mãos. Tinha hematomas ao longo do corpo e da alma. Mancava, prendia o gemido e sentia doer partes que sequer sabia que existiam. Seu dia não fora nada diferente de muitos outros que já suportara, mas esse era diferente.
Tropeçou nos próprios passos até colocar os galões do lado esquerdo do sofá, na sala. Em seguida, arrastou o que restava de si até a penteadeira que por muitas vezes a acompanhou se maquiando. Retirou os cílios postiços com a precisão de uma cirurgiã e limpou o batom com a destreza de um animal selvagem. A peruca foi a próxima; jogou ao chão lindos cachos loiros. Baixou e escorou a cabeça na cabeceira que a separava do espelho e riu – mas não estava feliz. Quando o sofrimento é demais, as pessoas riem ao invés de chorar.
            Pela terceira vez em dois anos, fora espancada por se vestir da maneira como a agradava, e sobretudo por ser quem desejava ser. Quatro homens a abordaram no ponto de ônibus e fizeram do seu corpo saco de pancada. A tortura durou alguns minutos que mais pareceram horas, até o momento que uma viatura resolveu aparecer e afugentar seus espancadores. Ajudaram – talvez pela obrigação do ofício – a vítima e a levaram pra delegacia mais próxima. Lá, como é previsto, a queixa foi prestada. De tão preconceituoso o escrivão sequer ouvia o que Kelly tinha dizer. O que mais o agradava era o exotismo de ter alguém como ela à sua frente. Por fim, mesmo ferida, desistiu da queixa e rumou sozinha pra seu lar. Contudo, no caminho decidiu passar num posto de gasolina.
            Diante do espelho, viu seu reflexo e deixou aflorar algumas lembranças. Recordou o quanto apanhou do seu pai quando ele descobriu o que fazia nos sábados 
à noite, das lágrimas da sua mãe – que a amava, sabia –, dos olhares dos desconhecidos ao longo das avenidas e do preconceito que, havia anos, não a deixava dormir. Chorou e libertou algumas de suas dores, todavia sabia que passaria a noite toda naquela lamúria se permitisse. Levantou de súbito e rumou para a cozinha.

            Pegou o primeiro uísque que viu no seu armário, destampou e bebeu na boca. Foram duas garrafas em menos de vinte minutos. Transpirava por todo o corpo quando na terceira garrafa, após doze goles, banhou o rosto com a bebida. Limpou a face com o pulso repleto de pulseiras e, meio a tropeços, caminhou até a sala. Arrastou os galões até o banheiro e despejou tudo na banheira – onde já tinha um pouco de água. Em seguida, alcoolizada e distante da razão, colocou o resto de uísque da garrafa numa taça e despiu-se.
            Mergulhou na banheira como veio ao mundo, sem deixar – é claro – a taça cair. Suspirou. As ofensas, os tormentos – tudo vinha à tona. Sempre fora o que queria e conseguia ser, uma mulher, e por limitações biológicas o resto do mundo dizia que não, que não lhe era cabível. Nunca se encontrou meio aos outros, mas jamais se perdeu do que era no íntimo. Sã ou bêbada; estava cansada de tudo aquilo. De todo o teatro de aceitação que, no fundo, sabia que existia. Não queria ser assim, mas era – o que restaria senão aceitar? Porque se martirizar por um erro que não foi seu?
            Sacou o cigarro que sequer lembrava que deixara na noite anterior sobre a pia do banheiro, acendeu e tragou. Nem aquilo a tranquilizava, e fez o que viera até ali pra fazer.
            – Hoje, o tratamento de beleza é outro.

            E largou o cigarro. O fogo de imediato se alastrou na gasolina numa velocidade absurda. Morreu gritando na banheira que tanto trabalhara pra comprar. Debateu-se – inclusive, fervorosamente – ao ponto de quase escapar da morte enquanto se arremessava pra fora, mas não se deu ao luxo de ser incompetente. Fora até aquele ponto e se jogaria no precipício que ela mesma preparara – decidira há horas. Kelly morreu por se ser mulher num mundo onde ninguém aceitava a verdade que cada um leva dentro de si próprio. Quem dera sofresse sozinha; há em muitos a dor de entender o porquê da sua escolha e fingir viver em paz com isso.



Sobre Fixação Literária

Fixação LiteráriaSomos jovens escritores que almejam um lugar nesse vasto campo que é o universo literário e termos a chance de acrescentar na amargura do mundo uma gota de criatividade, duas colheres de elegância e uma pitada de imaginação. Créditos imagem - Mell Galli
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