A princesa Azarada

A Princesa Azarada
Conrado Franconalli

A minha sorte no amor só existe enquanto eu me apaixono, depois disso o azar me preenche inteiramente. É sempre o mesmo enredo; os garotos se encantam com meus olhos verdes e eu cultivo uma afeição pelos que me parecem príncipes, mas – como minha mãe costuma dizer – príncipes não existem, e se existem sempre morrem protegendo donzelas. Após o primeiro beijo, o azar toma conta do meu ser e nem mesmo um pastor, um padre e um exorcista conseguem arrancar a falta de sorte encarnada do meu corpo. É fácil encontrar alguém que satisfaça meus desejos e anseios, porém todos eles são falsificados ou vítimas de “acidentes” – uso aspas porque acredito seriamente que o destino não gosta de mim (na realidade, tenho certeza disso).
Dizem que quem não tem sorte no amor terá em alguma guerra, visto isso eu preciso logo invadir alguma potência nuclear para comprovar tal pensamento. Como eu já citei, é sempre a mesma história; eu conheço um garoto legal e me entrego à felicidade de ter alguém, no entanto algo de ruim ocorre. Carlos Eduardo, meu primeiro namorado – por exemplo –, dois dias depois de começarmos a namorar foi atropelado por um caminhão e morreu a caminho do hospital. Eu chorei muito no velório e jurei nunca mais gostar de ninguém, não obstante duas semanas depois não resisti aos encantos de Augusto Fernandes.
Ele, por sua vez, tinha olhos azuis, pele clara e uma coleção de camisas vermelhas que eu sempre adorei. Ao seu lado bati meu recorde de tempo válido de namoro – uma semana e meia – e aprendi que nunca se deve subestimar o poder do sol. O que aconteceu? Ele foi diagnosticado com câncer de pele e teve que mudar para Londres, em virtude do clima e por um melhor tratamento médico. Continuamos nos falando por redes sociais, contudo eu não sei o que eu fiz contra os caminhões para que um deles atropelasse mais um dos meus amores. Eu soube por redes sociais, depois de um dia sem respostas das mensagens que enviava para Augusto, que na Inglaterra o trânsito é intenso e por conta disso ele foi atropelado na volta do colégio. Pensei o pior, e acertei. O corpo de Augusto – que eu carinhosamente chamava de Guto – foi enterrado em uma cova na mesma ala que foi enterrado o Carlos.
Depois daqueles episódios decidi sempre manter a guarda alta quando avistasse um caminhão, não obstante minha mãe me disse que existem outros tipos de caminhões na vida – o que aprendi alguns meses depois. O tempo passou e logo – já recuperada de mais uma perda – conheci Fábio Alencar, um garoto novato com músculos atrativos. Entretanto, depois de muita conversa sobre um possível namoro – logo quando eu estava me apaixonando por ele – descobri o que ele fazia nos becos e ruelas altas horas da noite. Usar drogas? Quem dera, ele estava me traindo apesar de não existir nenhum compromisso firmado. Em virtude da decepção chorei muitos dias, no entanto tudo melhorou quando conheci João Guilherme, o mais belo dos príncipes que encontrei.
– Ele é lindo, cabelos negros, ombros largos, rosto atraente, olhar penetrante... – eu o elogiava sempre. Mamãe era a ouvinte daquela vez.
– Acredito em você. Então vocês serão o casal perfeito.
– Então você acha que sou uma princesa? Mãe, não sou tão criança para acreditar nesse tipo de coisa – contudo, minha autoestima subira até as primeiras camadas do céu.
– Sim, uma princesa azarada, mas uma princesa – o comentário me ofendeu, porém era mais que verdadeiro. Minha autoestima desceu até a casa de Lúcifer.
Quatro dias depois Guilherme me pediu em namoro, todavia me pediu segredo. Eu perguntei por que, afinal exerceríamos um relacionamento aberto e ele não soube me responder. Discutimos por isso e eu logo falei com a mãe sobre seu comportamento – minhas sogras sempre me auxiliavam nas discussões – e ela o olhou de maneira suspeita. Em seguida aquela mulher de quarenta e poucos anos fez o certo; explicou-me que ele já tinha uma namorada. Em seguida eu fiz uma confusão como o hemisfério sul nunca havia visto antes. Mais uma vez eu era uma vítima dos caminhões da vida.
Deus não gosta de mim, concluí. Decepcionei-me como nunca e, apesar de continuar vaidosa, não saí mais de casa. Mamãe me dizia que eu tinha que superar aquilo, porém eu não a ouvia. Quando nada parecia me libertar do sofrimento ela me levou ao cinema para assistirmos, como costumávamos, filmes seguidos durante toda a tarde. No cinema conheci um novo garoto que misteriosamente sentou ao meu lado. Como havia intervalos entre os filmes nós conversamos um pouco e logo percebi que seu rosto era razoavelmente bonito – na realidade ele tinha só mais um rosto comum, talvez eu estivesse carente – e um papo cativante. Seu nome? Gabriel, ao menos nome de anjo ele tinha.
Ao término das sessões ele pediu meu número, e mesmo hesitando eu dei. No dia seguinte conversamos um pouco e logo descobri que ele era mais legal e atrativo do que eu supus. Ele gostava dos mesmos livros, filmes e músicos que eu, o que certamente me fez tratá-lo diferente – de uma maneira melhor, claro. Conversamos sobre tudo até o momento que aquela mensagem via celular, em específico, me atingiu a alma. Eu queria acreditar nela, porém o meu coração suspeitava da situação.
Eu acho que estou apaixonado, 14h52min.
Por quem? 14h52min – simulei a inocente.
Eu preciso mesmo responder? 14h53min.
Eu demorei alguns segundos para continuar a conversa e me questionei bastante. Será que ele, assim como os outros, só quer se aproveitar de mim? Refleti. Será que se eu retribuísse a paixão ele morreria atropelado? Eu temia por nós dois, mais por mim – é óbvio. Decidi ser direta e não bancar mais a princesa submissa. Estava vacinada contra relacionamentos que me faziam sofrer, e eu continuaria assim.
Eu não quero brincar de me apaixonar, então é melhor parar com isso, 14h54min.
Eu estou apaixonado por você e não estou brincando. Por qual motivo você não acredita em mim? 14h54min.
Eu tinha motivos para não acreditar, contudo acreditei. Três dias depois fomos ao cinema – mesma sala onde nos conhecemos – e protagonizamos nosso primeiro beijo. Eu evitei me aproximar dele, mas ele – ao contrário de mim – não tinha medo de demonstrar o que sentia. Por fim, ele me levou em casa e se despediu com um contido beijo no rosto – mamãe estava nos olhando. Quando ele saiu, ela me perguntou tudo que desejava saber e eu, naturalmente, respondi.
Conhecemos-nos melhor e enfim eu me permiti gostar dele. Menos de uma semana depois começamos a namorar. Ao invés de temer uma tragédia amorosa eu decidi me blindar contra possíveis futuros acontecimentos. Eu tinha, basicamente, que saber do seu passado e me certificar de que ele era o bom garoto que demonstrava ser e defendê-lo dos caminhões que, como nunca, rondavam as avenidas da cidade. Conversei com sua mãe – como eu já disse, as sogras são as melhores aliadas –, seus parentes e até com seus professores e descobri que não, ele não tinha podres ou manchas no passado. Continuei atenta, entretanto ele mesmo me esclareceu tudo o que mantinha minhas suspeitas. Virgem, beijou no total três meninas na vida e sempre foi muito quieto – ele me contou tudo e fiquei parcialmente tranquila.
– Eu não acredito nisso! Está tudo acontecendo novamente! – eu gritava após receber a notícia de que Gabriel fora atropelado por uma bicicleta.
– Calma filha! – era a voz exaltada da minha mãe – Ele está bem. Foram só alguns arranhões.
Corri para o hospital e me certifiquei de que era algo superficial. Passei algumas horas com ele e conversamos bastante. Contei a ele sobre meus antigos namorados e ele disse que talvez me entendesse um dia, afinal eu era a sua primeira namorada e a única que ele desejava ter – quase chorei com tamanha fofura. Minutos depois eu tive que sair, pois precisava escrever alguns relatórios do colégio. Enquanto eu saía do hospital pensei no quanto ele era importante para mim e em quantas bicicletas, carros, trens ou caminhões eu estava disposta a parar com as mãos para que nosso romance não tivesse um final trágico. A história não se repetiria, eu sabia disso.
Já fora do hospital, quando o semáforo abriu o telefone tocou. Eu o procurei por alguns segundos e depois de quase arremessar minhas chaves na rua finalmente atendi.
– Oi?
– Sou eu, Helena, mãe do Gabriel – era uma voz de mulher. – Estou ligando só pra avisar que você esqueceu seus documentos na recepção.
– Ahh... – recordei de imediato – Eu já estou voltando para pegar – dei meia-volta e o pior aconteceu.
– Cuidado moça! – ouvi o grito de um rapaz em uma calçada e depois disso o pleno silêncio.
Depois disso tudo escureceu e minha consciência se apagou. Eu nunca soube, mas um ônibus me atropelou e eu morri no exato momento do impacto. No fim eu estava certa, Gabriel não morreria atropelado ou me decepcionaria – quem me dera ter a mesma sorte. Parti jovem, bonita e sem jamais viver uma grande paixão, o que certamente é algo muito distante de namoros adolescentes. Incompleta eu me fui, sem saber para onde, sem saber como. Talvez morrer seja assim; partir sem desfrutar do último momento por crer que haverá algum futuro.

Morri cedo sem uma grande história de amor, sendo apenas mais uma vítima dos caminhões da vida.

Sobre Fixação Literária

Fixação LiteráriaSomos jovens escritores que almejam um lugar nesse vasto campo que é o universo literário e termos a chance de acrescentar na amargura do mundo uma gota de criatividade, duas colheres de elegância e uma pitada de imaginação. Créditos imagem - Mell Galli
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