Atitude e Assédio - Uma linha tênue

  Um gesto romântico pode ser interpretado de duas formas: como um ato amoroso ou como um ato assustador. Existe, portanto, uma linha tênue entre amor e insanidade, tal como entre a atitude e o assédio.

   Se a garota estiver a fim do cara, (como dizemos em inglês, "She is really into...") se ele se aproximar dela na escadaria da universidade, abraçá-la e beijá-la sem dizer nada previamente, essa atitude pode ser vista como algo romântico porque ambos estão interessados, ou seja, como Dobler.

   Por outro lado, se a garota não estiver a fim do cara, se ele fizer exatamente a mesma coisa, sua atitude será considerada assédio e ela jogará spray de pimenta em sua face, ou seja, a atitude dele foi Dahmer. (Se está com dúvidas, reveja a teoria Dobler-Dahmer).
   De fato, a linha entre ter atitude e ser um assediador é muito tênue e depende exclusivamente da forma como quem recebe o ato irá reagir.

   Sempre discutiu-se que, na sociedade em que vivemos, o homem deve ter atitude sempre. Se ele vê uma garota, ele deve se aproximar dela. Se uma garota está dando em cima dele, ele é quem deve tomar a atitude, agarrar a garota e beijá-la. Durante muitos anos isso aconteceu e a sociedade nunca deu a mínima atenção para como a mulher encarava essa conduta, até porque o machismo instaurado na sociedade fazia com que as mulheres acreditassem que elas não poderiam manifestar abertamente suas opiniões e seus desejos, caso contrário seriam rotuladas (fato que, embora em menor escala que há 10 anos atrás, ainda ocorre fortemente).
   Essa postura inadequada não foi alterada, mesmo com a ascensão do feminismo e do posicionamento da mulher na sociedade. Hoje, é comum ver uma mulher observar um homem qualquer no bar e a iniciativa de aproximação partir dela. Digo isso porque o vejo diariamente.
   No entanto, há um lado dessa moeda que não é discutido: o lado dos respeitadores. Quando a maioria dos homens primitivos e antiquados escutam essa palavra, a primeira coisa que imaginam é "sujeito mole", "boiola", "fresco", e por aí vai. Pelo incrível que pareça, muitas mulheres também pensam assim, inclusive, são as primeiras (na maioria dos casos) a rotularem os respeitadores dessa forma.

Mas o que seria um sujeito "respeitador"? É fácil de explicar:
   Um homem como qualquer outro, mas que aprendeu duas coisas bem simples na vida, a respeitar o desejo da mulher e a evitar qualquer tipo de assédio. São duas coisas simples e que qualquer sujeito deveria compreender (sério, não é tão difícil), mas que ao passar dos anos a sociedade mostrou-se inapta a adquirir tais conhecimentos.
Na prática, um sujeito respeitador sabe que se a mulher diz "não", então é não e acabou. Sem choro nem vela. Sem apelação. A resposta é não. Fim de jogo.

E qual o problema nisso? Esse já não é tão simples.
   Tem mulher que em pleno 2017 ainda acredita que tem de se fazer difícil para conquistar um homem (não as culpo, cada um faz com sua vida o que quer), algo que é compreensível se percebermos a sociedade nojenta e machista em que crescemos. Essa atitude de se fazer difícil (o famoso "fazer doce") não é o problema em si. O problema começa a partir do primeiro "não" que a mulher diz ao se fazer de difícil e a rotulação que ocorre após isso.

   Ao ouvir esse "não", um homem respeitador vai preservar o direito da mulher de recusa à paquera e vai se afastar, que seria o correto a se fazer. A mulher, que muitas vezes não percebe quão machista é sua atitude, passa a rotular tal sujeito como "frouxo", "sem atitude", "mole" e daí pra mais.
   A questão não é ser "mole" ou "sem atitude". Não é não e acabou. Mas se o sujeito não insiste, ele é considerado menos homem; se ele insiste, é um assediador (e com o segundo eu concordo).
   Ser confundido com um assediador é algo sério, e por isso, nós respeitadores, fazemos todo o possível para evitar tal confusão, mesmo que às vezes isso signifique tirar o time de campo quando parece que estamos ganhando porque, mesmo que a mulher diga "não" querendo dizer "sim", ao escutarmos a negativa nós nos retiramos. Qualquer ponto depois de um "não" é assédio.
  Para um homem que cresceu aprendendo que se a mulher diz não, é não, chegar em uma garota agarrando-a e beijando-a é algo inadmissível. Em alguns casos, mesmo que a mulher demonstre todos os sinais de que quer isso, se ela não disser expressamente a palavra "sim", essa aproximação não vai ocorrer.
   Não se trata de não ter atitude. Trata-se de compreender que existe uma linha tênue entre Atitude e Assédio, e quem define essa linha é a mulher. Um homem que sabe que deve respeitar as mulheres, jamais se arriscará a cruzar essa linha.

Por: Iago Victor

Sobre Fixação Literária

Fixação LiteráriaSomos jovens escritores que almejam um lugar nesse vasto campo que é o universo literário e termos a chance de acrescentar na amargura do mundo uma gota de criatividade, duas colheres de elegância e uma pitada de imaginação. Créditos imagem - Mell Galli
Recommended Posts × +

0 comentários:

Postar um comentário