Ellen

Conto Original de: Anderson Rodrigues







“Há um tempo, quando fui a uma missa, eu me peguei imaginando “e se de repente, uma pessoa escalasse essas paredes e começasse a gritar”? O que será que aconteceria com todos aqui dentro?”.
Confesso que por um tempo, eu deixei de pensar nisso, mas a história veio, derrubando tudo. Não pensei como seria o personagem, nada. Apenas veio me mostrando como deveria ser. O resultado foi interessante.
Confesso que às vezes me senti tenso enquanto escrevia, e cheguei a pensar duas vezes se prosseguiria a história. Mas a vontade de escrever, e a vontade dela de ser contada eram mais fortes. 
Esse assunto sobre demônios, possessão sempre chamou a atenção da maioria dos fãs do terror. Acreditando que exista ou não. Não estou aqui para dizer que você deva acreditar. Você que se deve essa resposta.
Dito isso, acho válido dizer que mexi um pouco no resultado final da história. De certo modo, achei o original um pouco pesado. Quem sabe eu mostre um dia?
 Só leia com a luz acesa. Caso escute algo caindo ao seu lado enquanto lê essa história, peça auxílio a São Miguel.”





1

Ellen olhava para a imagem de Cristo que ficava no altar, a sua direita estavam a mãe e os irmãos gêmeos, e a sua esquerda estava o pai. Todos estavam de olhos fechados, e repetiram em coro “Ele está no meio de nós”, após o padre falar. Seguiu assim, até terminar a ladainha. Ela olhava as crianças brincando, escutava e seguia o som de bebês chorando, ela ainda não sabia o que falar, a não ser rezar o ‘Pai nosso’ e ‘Ave Maria’. Tinha duas semanas que estava em processo, para se tornar uma católica, como toda a família. Ellen tinha seis anos.
O Padre começou a andar por entre os fieis, e aspergir agua benta em todos. Ellen estava se sentindo diferente, ela gostava de ir a igreja, gostava de admirar a imagem de Cristo, e gostava ainda mais da imagem da Virgem Maria que ficava à esquerda do altar. Mas aquele dia estava diferente, ela não estava se sentindo bem, não estava feliz. A mãe a feriu ao toca-la com a mão que estava o crucifixo enrolado. O Padre estava chegando próximo a eles, no mesmo lugar que sempre sentavam.
Ellen e a família chegavam uma hora antes da missa, para poderem sentar no lugar de sempre: fileira do meio; quinto banco. Sentavam sempre os cinco no mesmo lugar.
O Padre se aproximou, Ellen estava mordendo os lábios com força, e sentiu algo quente descendo pelo queixo, e a ultima coisa que viu foi o  Padre lançando sobre ela a água benta.
As pessoas foram surpreendidas por um grito gutural, algo que não era totalmente humano, e ao perceberam que aquilo veio da criança que agora andava pelas paredes, as pessoas entraram em pânico, o Padre olhava para a cena. Ele conhecia Ellen desde que nascera. Ele a batizou. Assim como batizou o pai dela. A perplexidade nos olhos do padre tirava o conforto de quem o visse, e perderia o controle ao olhar para a criança que andava pelas paredes da igreja e gritava. Parecia uma aranha, com o rosto completamente deformado, as mãos mais pareciam garras. Ela parecia rir, e aquele riso era intenso, arrepiante, doloroso.
Algumas pessoas correram para fora da igreja, os pais de Ellen olhava a coisa que há poucos segundos era a sua filha. Ela começou a relinchar, em seguida, ela gemeu como um porco, depois como vaca. Caiu da parede em convulsão.


2

Uma semana depois do ocorrido, as pessoas continuavam falando, algumas aumentavam a história. Algumas disseram que ela criou asas de morcego, seus dentes pareciam facas afiadas, seus olhos eram negros. Alguns simplesmente quiseram esquecer o foi visto.
Um mês depois, a  família de Ellen desde então não tiveram paz, curiosos iam até a casa deles para entender o que de fato aconteceu, padres entravam em saiam noite e dia, freiras estavam cuidando de Ellen. De dois em dois dias, os padres mudavam. Os Padres substituídos eram mandados para outro estado, e juravam jamais falar sobre as pequenas sessões.
A coisa poderia ter tomado proporções maiores porque alguns filmaram, mas ao tentarem divulgar, o vídeo não reproduzia imagem, apenas a gritaria das pessoas que tentavam fugir da igreja. 
O único Padre que continuava firme dentro da casa dos Hendrich era o Padre Gustavo. Ele viu tudo, presenciou, e não saiu do lado da família. Ele que entrou em contato com a igreja, ele foi a testemunha para falar sobre o nível de possessão. Ele estava há um mês a base de agua e pão, padres iam viam, diziam ser poderoso demais. Mas Gustavo, que havia pego aquela garota no colo, não aceitaria perder aquela luta. Deus era seu Senhor, e sua testemunha de que ele não deixaria a casa enquanto Ellen não estivesse liberta.
- Padre, Ellen quer te ver. – Gustavo abriu os olhos somente depois de terminar a reza que fazia. Olhou o olhar abatido de Suzanne, e sentiu pena da mulher que estava em sua frente.
- Vou até ela. Descanse minha filha. Dormir lhe fará bem.
Suzanne observou o Padre se levantar, e começou a chorar. Era o que fazia ultimamente, chorar e perguntar a Deus o porquê de aquilo estar acontecendo. Por que era a sua garotinha que estava com aquele mal. O marido estava no quarto com o que um dia fora, e ela acreditava com todas as forças, que a filha voltaria a ser quem era.
Padre Gustavo entrou no quarto, e viu Ramon lavar o rosto de sua filha com uma esponja, o crucifixo estava na parede como deveria estar, era apenas em filmes e livros que a cruz de ponta cabeça significava algo demoníaco, e ela queria que parassem de divulgar isso. Ramon olhou para o Padre, e deu um sorriso e levantou após dar um beijo na testa da filha.
- Deixarei os dois a sós.
- Obrigado, meu filho.
Gustavo olhava para Ellen, um sentimento de amor o cobriu, e ele começou a pedir a Deus que ajudasse aquela pobre criança enferma. Ele queria ajuda-la, mas não sabia como. Ela infelizmente estava com um problema que não era de sua categoria.
- Padre. – A voz suave de Ellen o tirou de seu devaneio.
- Estou aqui minha querida. – Ele puxou uma cadeira, e sentou ao lado da cama, de frente para ela, de forma que pudesse olhar para o seu rosto.
Ele olhou para os braços e pernas de Ellen, estavam amarrados e machucados, os lábios rachados, os cabelos bagunçados. A garota, mesmo fora da crise, tinha uma aparência horrenda, triste. Doía vê-la.
- Deus não gosta de mim?
A pergunta doeu-lhe o estomago. Por que aquela menina pensava isso? Ela que era sempre elogiada pelas irmãs, tinha dificuldade em decorar as rezas, mas mostrava sempre que amava a Deus sobre todas as coisas. Ele sempre reparava nela durante as missas, enquanto as crianças fugiam de seus pais para correrem em um ponto da igreja que ninguém as escutava, Ellen estava lá, observando atentamente, e rezando o que sabia rezar.
- Ele o ama. Jamais duvide disso.
- Ele diz que Deus não me ama.
Gustavo ouviu algo cair da cômoda que ficava próximo a porta. Ele sentiu medo, seu corpo ficou fraco e suas vistas embaçaram.
- Quem diz isso?
Ellen ficou calada. Ela não o olhava nos olhos, apenas mordia os lábios.
- Certa vez eu te disse que isso acontece, porque você é forte. As vezes, Deus permite que isso aconteça com seus filhos, para mostrar a Satanás que somos fortes. Deus acredita na sua força, o Diabo duvida, e faz isso para provar que ele está errado. Mas sabemos quem realmente está errado.

O quarto estava começando a ficar frio, estava ficando difícil de respirar, a fraqueza no corpo de Gustavo estava ficando maior, ele sentiu algo escorrendo de seu nariz, sangue. Quando levantou a cabeça, Ellen estava o olhando, o olhar vazio. Já não mordia mais os lábios. Os olhos começaram a mexer, o azul do olho de Ellen foi trocado pelo branco. Seus olhos pareciam ter girado. O sorriso malicioso veio para o rosto magro e pálido, e fez sangrar os lábios feridos.
Para uma pessoa que tenha o mínimo de estudo possível, Ellen deveria estar há beira da morte, não se alimentava há um mês, quando tomou sua ultima refeição. Provavelmente ela estava quase morrendo. O demônio estava ganhando.
- Padre Gustavo! – A voz fez tremer o quarto de Ellen. O olho de Gustavo doeu, parecia que estavam apertando.
Gustavo colocou a mão sobre o quadril direito, ele tinha artrose e a pressão no ambiente estava fazendo a dor vir com toda a força que já nem lembrava que ela tinha. A voz daquilo que estava em Ellen quase o enlouqueceu. Enlouqueceria, caso ele não fosse um homem temente a Deus. Deus era o único que poderia protegê-lo nessa situação, e ele acreditava fielmente nisso. Pelo menos era o que ele acreditava.  
Uma bola parecia ter entalado na garganta de Gustavo, ele por um instante se viu correndo para a porta do quarto, e deixando tudo para trás. Ao voltar a si, depois de repreender seus pensamentos, ele percebeu que estava em pé, no canto do quarto, de costas para Ellen, e apertando o crucifixo que carregava em seu pescoço. Ganhara de sua mão quando entrara para o magistério.
- Por que está me evitando Gustavo? Não sou boa o suficiente para você? – Era a voz da irmã Carmen. Ela o abusara na creche quando ele era mais novo, ele bloqueara essa parte do passado. Pouco tempo depois, ela saiu da creche  do magistério, e foi encontrada morta meses depois. – Você não me acha bonita, Gustavo? Venha, não contaremos para ninguém. Depois pedimos perdão a Deus. – A coisa riu.
Gustavo sentiu que iria desmaiar, e se recusava a virar para Ellen, achava que ela teria tomado a forma da irmã Carmen.  
- Eu te repreendo! Eu te repreendo! – Dizia Gustavo virado para a parede.
Pela primeira vez, Gustavo estava dessa forma, no fundo não acreditava que a coisa tinha ganhado força nos últimos dias. Ele se lembrou de Samuel, o ultimo padre exorcista que apareceu  para tentar ajudar Ellen, disse que se não corressem contra o tempo, o demônio a levaria. Entendeu o que Samuel quis dizer.
- Olhe para mim, seu porco. – Gritou Ellen. A voz, agora era uma mistura não apenas de duas, mas várias vozes, Gustavo apostava em mais de doze, e entre as vozes, conseguiu ouvir a voz de Ellen chorando e pedindo socorro.
Ele virou para Ellen, e a viu em pé de frente para ele. Se perguntou como ela estava ali, como ela conseguiu tirar as amarras, ele caiu no chão, e Ellen ajoelhou a sua frente. Gustavo sentia a respiração pesada de Ellen, ele estava tonto, sentia que iria desmaiar. Seu peito doía, seu coração batia forte. Sentiu vontade de vomitar quando ela abriu a boca, o cheiro de carne podre entrou por suas narinas e por um momento ele se viu forçando para não vomitar. Ele iria desmaiar, ele queria desmaiar.
- Me beija, Gustavo. – Disse a voz da irmã Carmen. A língua ficou de fora, e nada lembrava a uma língua de criança, a língua não estava vermelha. Estava preta. Vermes rastejavam em sua língua. Gustavo vomitou.
Ellen saltou e ficou no teto, como uma aranha, ria e o seu riso fazia todos os ossos de Gustavo doer. Ele estava sentindo o que os outros padres sentiram ao tentar exorciza-la, a diferença era que aquilo não era um exorcismo. A coisa realmente queria que ele sentisse o que os outros sentiram. Queria que ele desistisse de Ellen como os outros desistiram.
Gustavo percebeu que estava levantando, mas ao mesmo tempo não conseguia respirar, ao abrir os olhos, Ellen estava novamente de frente para ele, ele olhou para baixo e entendeu, ela estava erguendo seu corpo com facilidade, apertando seu pescoço. Ele entendeu que tinha desmaiado por um instante. Ele pensou que queria estar morto, e deveria estar mesmo, já era velho, e tinha feito muitas coisas para Deus e pela igreja. Ele não se sentia forte o bastante para enfrentar um demônio.
- Gustavo. – Os olhos agora vermelhos o olhavam de forma que o hipnotizavam. – Você não vai conseguir encontrar alguém forte. Essa garota, é minha!
O Padre estava decidido que sim, que perdeu aquela jovem alma, que Ellen não voltaria ser quem um dia foi, e que Deus perdoasse sua fraqueza, por ter desistido daquela criança.
Padre Gustavo adormeceu, e o que veio foi apenas escuridão.

3

Gustavo acordou três dias depois, e deitada sobre sua cama estava Suzanne, ele tocou o ombro da mulher abatida que estava dormindo. Ele sentiu pena em acorda-la, parecia que pela primeira vez, ela estava conseguindo dormir de verdade.
- Padre. – Suzanne levantou a cabeça limpando a baba que descia de sua boca. – Finalmente você acordou. Padre, eu temi pelo senhor.
Gustavo olhava nos olhos da mãe de Ellen, temia o pior. Ela percebeu isso.
- Ela está bem Padre, não se preocupe. Claro, bem do jeito dela. A última crise que ela teve, foi há três dias, quando ela fez isso com o senhor. Não sei como ainda está vivo.
- O que ela fez exatamente. Lembro apenas de ela estar me segurando.
- Sim, ela estava o segurando quando Eu e Ramon entramos no quarto, subimos correndo depois de ouvi-lo gritar, tínhamos dormido, acordamos com você gritando. Como se fosse sua tentativa desesperada de pedir ajuda.
“Ramon conseguiu tira-la de perto de você, e conseguiu amarra-la. Ela esta dormindo desde então. Igual o senhor.”
- Quero leva-la para dentro da igreja, se você me permitir.
O padre não olhava para Suzanne, ela não entendeu. Gustavo estava serio, o rosto velho e enrugado estava momentaneamente mais forte, firme. Ele parecia decidido.
- O que senhor está planejando?
- Estou seguindo as ordens de nosso Criador. Quero salvar sua filha. Eu sou o escolhido de Deus.
Gustavo disse com certeza, mas seu coração estava batendo rápido. Não tinha certeza se foi um sonho. Ele acredita que estava morto, era para estar.
- Ligue para algumas pessoas, para ajudar Ramon a levar Ellen para a igreja. Vamos coloca-la sobre solo sagrado. Deus estará lá conosco. Lá, ele perderá forças.
Padre Gustavo anotou alguns nomes e telefones, Suzanne ligou para todos, e fez o que o Padre mandou. Em seguida ligou para o marido, e deu o recado. Ele apenas disse que a filha estava dormindo, mas estava agitada.

Ramon estava com a filha em seu colo, abraçava com força o corpo já sem fora de Ellen, ele estava sentado atrás no banco do meio, e em cada lado havia uma freira, e no banco do passageiro à frente, tinha um padre, todos rezando. Quem dirigia era um jovem negro grande e forte, e pela roupa que vestia, estava no caminho para se tornar um padre.
Quando estavam há duas quadras da igreja, Ellen acordou. Padre Gustavo estava com Suzanne na porta da igreja, e viu o carro que se aproximava. Eles presenciaram o carro indo para a direita, indo para a esquerda. O carro capotou três vezes.

4

Enquanto estava em coma no hospital, Gustavo sonhou. Era o que ele acreditava agora. Talvez tivesse tido uma experiência de quase morte, mas foi um sonho. Ou uma mistura dos dois.
Ele estava em um lugar vazio, não sentiu medo, apenas aceitação e paz. Sentiu como se tudo tivesse parado no tempo. Tudo a sua volta estava em um azul que brilhava forte, tão forte que geralmente fariam seus olhos doer, mas não doía. Não tinha dores onde estava.
- Gustavo.
A voz era forte, mas calma e acalentadora. Não teve medo. A paz em seu espirito estava ainda maior. Ele virou e viu um ser grande, magnifico. Em sua mão tinha um lança, e ele parecia flutuar. Seus cabelos eram longos, cobertos em fogo. Seus olhos ardiam por justiça. Seu corpo tremeu.
- Não tenha medo, homem. Vim a mando de meu Pai. Eu sou aquele que liderou os anjos, para expulsar o mal do reino dos céus. Sou aquele, que expulsou aquele que nos traiu.
- São Miguel? – Gustavo se ajoelhou e começou a chorar. Sentia a benevolência, sentia a força que emanava.
- Meu pai mandou que me juntasse a sua luta, para que salvasse a alma daquela garota.
- Como poderei fazer isso?
- Peça que ela me chame.

Foi quando Gustavo acordou, e viu Suzanne na cama. Ele estava lembrando de tudo isso, quando viu o carro chegando, e o viu capotar. Ele e Suzanne correram até o carro, e viram de longe todos saírem menos Ramon e Ellen. Viram os que saíram carro lutando para tirar Ellen de dentro. Gustavo e Suzanne se juntaram e eles e conseguiram tirar Ellen de dentro. Ramon estava desacordado, e o jovem que dirigia o tirou e o levou para a igreja. Ellen que se debatia, era levada a força por Suzanne, as duas freiras, e os dois Padres.
Ao entrarem, correram para o altar, e Ellen foi deitada na mesa. Enquanto subiam as escadas da portaria da igreja, Ellen já estava calma, e havia voltado para um sono tranquilo.
Sobre os pés da mesa que estava no altar, amarraram os braços e pernas, o padre, o jovem e as duas freiras ficaram nas extremidades, cada um com agua benta e a bíblia. O padre Gustavo estava na ponta da mesa, próximo a cabeça de Ellen. Padre Gustavo estava em oração silenciosa, pedindo proteção, e auxilio. Seu coração batia rápido, seu corpo parecia que iria desmanchar. Mas não sentia medo. “Peça que ela me chame”. Gustavo não entendeu bem como o faria. Ellen acordou aos berros. As cadeiras dentro da igreja voaram.
- Ellen, chame por Arcanjo Miguel. – Gritou Gustavo.
Ao dizer isso, Ellen o encarou com raiva, e uma parte que parecia ser Ellen escutando olhou com duvida.
- Ellen, chame por Arcanjo Miguel.
- Nunca! – Esbravejou a coisa dentro da criança. – Ninguém, e nem ele irá ajudar essa garota! – Pela primeira vez, Gustavo sentiu medo na voz. E medo, era algo  que aquele velho padre conhecia.
- Miguel. Arcanjo Miguel, me ajuda! – Em um momento de lucidez e força da menina, ela gritou desesperada. Sua voz estava cansada, era como se ela estivesse correndo de algo. Gustavo pensou que ela estava se escondendo.
A criança continuou gritando, mas nada aconteceu. Ela adormeceu. Todos se olharam, Gustavo se perguntou se tinha acabado.
Ellen acordou desesperada, gritando pela mãe, pedia socorro. Suzanne correu para a filha. A coisa dentro de Ellen começou a rir. Suzanne foi jogada pelo ar. Caiu desacordada.
- Eu falei Gustavo. Nem mesmo Miguel poderá ajuda-la.
Gustavo olhava sem entender, o próprio arcanjo havia lhe dito o que fazer, e se aquilo fosse uma peça do diabo? Ele poderia ter o enganado. Era o pai da mentira.
- Não! – Gritou Gustavo. – Não era mentira, era ele mesmo. Você está tentando me enganar.
Gustavo estava com o crucifico enrolado na mão. Mergulhou as duas mãos em agua santa e as colocou no rosto de Ellen. Ela gritou, pediu que parassem, todos fizeram força para segura-la.  
- Ellen. Me escute, por favor. – Gustavo gritava em súplicas, ele chorava. – Senhor, permita que ela me escute. Meu Pai, não me abandone agora. São Miguel Arcanjo. – A fé naquele momento era a única coisa que restava em Gustavo. Ele sabia que era fé, porque ele nunca acreditou daquela forma.
- Padre. – a voz assustada de Ellen. – Eles estão vindo.
- Ellen, vou te falar o que deve ser feito, entendeu?
Não ouve resposta.
- Ellen? – Gritou Gustavo.
- Entendi.
- Eu vou falar e você repete.
“Principe Guardião e Guerreiro...”
Antes que ele continuasse, ele percebeu que Ellen soube continuar, ela sabia a oração de São Miguel. Quando ela terminou ele apenas gritou:
- Mais uma vez, com mais força e mais fé. Todos.
E todos rezaram, e rezaram, e continuou. Marcas de mãos estavam aparecendo pelo corpo de Ellen, as marcas pareciam queimaduras, ela estava chorando.
- Ellen, o final. Resista e fale o final. – Gustavo sentia uma presença poderosa. Ele percebeu o medo na voz daquilo que possuíra Ellen. – Diz!
- Instante e humildemente vos pedimos – todos estavam falando juntos, e a voz de Ellen estava abafada, como se ela estivesse sendo impedida de falar. Saia fumaça de algo que estava tentando tampar a boca. Estava queimando. – que Deus sobre ele impere e vós, Príncipe da milícia celeste, com esse poder divino, precipitai a Satanás e aos outros espíritos malignos que vagueiam pelo mundo para perdição das almas. Amém. – Ellen gritou o amém.
Uma luz invadiu a igreja, todos foram derrubados, e viram o corpo de Ellen subindo. Algo negro saiu da boca dela, como se estivesse vomitando. A coisa dentro de Ellen gritava, era um grito de derrota. Algo a colocou carinhosamente deitada na mesa.
Gustavo foi o primeiro a levantar, em seguida todos estavam em voltada mesa. Suzanne e Ramon choravam vitoriosos, aquilo tinha terminado. As feridas que o corpo da filha tinha, as marcas do tormento sumiram. Todos deram as mãos, e agradeceram. Fizeram a oração que o filho de Deus ensinou. Rezaram até Ellen acordar.

5

Um ano se passou desde aquele dia em que salvaram Ellen. Após o fim de tudo, Suzanne e a família mudaram de cidade.
Voltaram a cidade, para o enterro do Prade Gustavo. Ele descobriu um câncer de pâncreas três meses depois da vitória contra o mal que assombrou Ellen. Ellen agradeceu em silencio o padre que a ajudou. Eles viram o corpo do padre antes de a igreja abrir. Não queriam ser vistos.
Ellen reunião os pais em volta do caixão de Gustavo, deram as mãos. Iniciaram o ‘Pai Nosso’.








Sobre Fixação Literária

Fixação LiteráriaSomos jovens escritores que almejam um lugar nesse vasto campo que é o universo literário e termos a chance de acrescentar na amargura do mundo uma gota de criatividade, duas colheres de elegância e uma pitada de imaginação. Créditos imagem - Mell Galli
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