O Candidato Perfeito (pt.2) | 3017

Parte 2/2

– Enfim... – arfou Paul. – Nem humanos nem a segregação dos verdes com calda. O que precisamos é de justiça social, não de novos problemas.
Terminou sua fala nos dez segundos finais do seu discurso.
Fred ouvia tudo em silêncio enquanto pensava no quão falso era usar uma maquiagem azul para esconder sua pele verde. Desde criança – quando foi salvo pelo pai quando soube que tivera um filho verde – alimentava em si a ilusão de que, na verdade, era azul. Mas não poderia enganar seus próprios olhos, tampouco poderia enganar os outros sem a ajuda do material que todo dia colocava sobre sua pele oprimida.
– Sua vez Fred! – anunciou o mediador.
Levantou-se de cabeça baixa, mudo e, meio a passos, permaneceu calado. Não sabia o que pensar ou dizer, apesar de tanto ter ensaiado para aquele debate.
– Por favor, Fred, seu discurso – insistiu a mesma voz de antes.
Seu pai, na platéia, sorria. Acreditava que seu filho falaria da repressão aos segregados assim como citaria o plano político do seu avô para que o Planeta pudesse crescer e fornecer melhores condições de vidas aos cidadãos do Norte. Esperava que Fred fosse o que era na sua juventude; um político com velhas ideias e um novo corte de cabelo.
– Eu concordo com Paul. A separação entre criaturas verdes e azuis, com calda e sem calda, só serve para nos tornar mais vulneráveis as invasões dessa tal humanidade que insiste em nos impor um projeto que não pedimos – indagou com pressa. Tudo aquilo estava preso na sua garganta.
Saiu correndo do palco, voltou para casa as pressas e depois disso sabemos o que aconteceu.
Continuava olhando-se no espelho. Cansado de tanto se  vê, agarrou a pele da própria face e arranhou com toda a força que tinha – sentiu dor. Chorou vendo a cor verde da sua pele misturada ao sangue. Estava cansado de mentir para si mesmo, estava cansado de mentir para os outros. Berrou alguns palavrões, bebeu alguns copos de álcool em meia hora – dezoito, para ser exato – e, sob os efeitos da droga, não resistiu. Quando se está fora do controle, nossos desejos mais insanos e macabros floram e nos fazem de marionetes.
Correu até a cozinha, pegou uma faca e com a destreza de um animal, rasgou a parte da calça que prendia sua calda. Ela, que quase possuía vida própria, tremulou e pode respirar como não conseguia em meses. Depois, a passos lentos e contados, subiu ao quarto e vislumbrou o próprio órgão no espelho. Aquilo, tão inocente quanto parte dele, o tornava uma criatura do Sul, sem chance de rendição ou liberdade. Embora vivesse no Norte, teve a certeza de que era o que seus olhos viam.
– Não seja covarde – pediu ao próprio reflexo.
Tocou o próprio rosto que ainda sangrava e, como se tivesse uma ideia genial, sorriu. Aquilo, a calda, era um fardo tanto quanto ele era um problema para seu pai. Pensou como poderia aniquilar as duas complicações – ou seja, matar os dois coelhos – com uma cajadada só.
Ainda com a faca em mãos, subiu as escadas com todo cuidado para não fazer qualquer barulho.
Ao som do chuveiro, entrou na banheira cheia e, com um único golpe, cortou o problema pela raiz. O sangue jorrou e diluiu-se na água ao passo que o cheiro de morte se espalhava pelo ambiente. As lágrimas caíam no rosto abatido e perplexo pelo que fizera – e não poderia ser diferente. Embora fosse necessário fazer uma escolha a respeito da maneira como se via diante de todos, nunca imaginou que seria tão doloroso ver as consequências de seus atos sem arrepender-se. Dessa forma, apesar das lágrimas, observou inquieto – sem tremer ou soluçar – o corpo do próprio genitor ferido afogando-se na banheira cheia de água e sangue.

Matou o pai com duas facadas na jugular.

Sobre Fixação Literária

Fixação LiteráriaSomos jovens escritores que almejam um lugar nesse vasto campo que é o universo literário e termos a chance de acrescentar na amargura do mundo uma gota de criatividade, duas colheres de elegância e uma pitada de imaginação. Créditos imagem - Mell Galli
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